* Alexandre Palmar
Amanhã é o dia de ser amigo. Um ato com um propósito claro: sentir-se, por algumas horas, menos máquina. Chega de renovar as justificativas para adiar algo tão simples. São apenas visitas. Não fazê-las agora pode deixar uma má impressão pro resto da vida. Vai que a morte chegue de surpresa... Além dos papagaios, seria lembrado como devedor de amizade. Não, isso nunca. Responsabilidade acima de tudo.
A lista de contatos é grande. Sem dúvida dar um “oi” ao ancião de 90 anos é prioridade. Entre a última conversa com o velho camarada e agora já foram escritas várias listas de tarefas, daquelas elaboradas na calada da madrugada: pagar conta de luz, depositar cem reais, responder ao pedido do patrão, dormir cedo, etc. Sim, o etecetera está lá no pé da relação porque ele significa que sempre existem outras “demandas a ser sanadas”.
Tem ainda o confidente da época da universidade. Nos últimos meses só é visto na bancada do telejornal. Ao fim de cada matéria, ele repete: “Ligue para gente, denuncie os problemas no transporte, na saúde, na educação”. Mas como dividir o segredo com um tubo de vidro? De fato, essa visita é fundamental. Do contrário, num momento de sensibilidade, escuto o chamado global e ligo para ele, na emissora. Perigoso, a confidência pode virar notícia.
Bom, se é para ser amigo nesta segunda-feira, tem que ser por inteiro. Falta incluir a antiga colega de redação, o vizinho de infância, a namoradinha de escola e o parceiro das peladas. Também é preciso aparecer em casa, porque lá reclamam da presença só de corpo. E olha que aqui nem estão os amigos de outras cidades e os parentes queridos. Sorte que pais e irmãs são facilmente vistos em dias de peru coletivo.
São esses os lembrados. Parece pouco. Dá para falar com todos eles antes do anoitecer, sem transformar tudo numa visita de médico. É uma questão de agenda e inteligência: “moradores” da Região Norte primeiro, depois é só pegar a rodovia para dar as caras aos “habitantes” da zona leste. Basta respeitar os horários agendados para a chegada e a partida, que o roteiro será cumprido à risca. Será mais um suado xis na lista de tarefas.
* Alexandre Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu e organizador do MEGAFONE.
Texto publicado originalmente na Revista Escrita, edição 7.
Imagem: X-Tudo, do programa Rá Tim Bum, da TV Cultura.
|