* Alexandre Palmar
É preciso lutar contra monopólios e oligopólios, diretos e indiretos, nos meios de comunicação; é importante denunciar a participação de políticos no mass mídia; é preciso valorizar a comunicação regional dentro das concessões públicas de mídia; é necessário qualificar o conteúdo das mensagens; e é urgente descriminalizar as rádios comunitárias.
Todas essas bandeiras foram levantadas na Conferência Livre de Comunicação, em Foz do Iguaçu. Outras tantas propostas surgiram na etapa estadual. Centenas serão apresentadas na conclusão dos trabalhos, em Brasília, quando delegados de todos os estados aprovarão diretrizes e ações para as políticas públicas e para coibir os abusos no setor.
Dentro do debate municipal, também foi resgatada a importância de veículos alternativos à grande mídia, tão antigos quanto à própria imprensa de massa. Instrumentos como fanzine e rádio comunitária sempre foram úteis para ecoar a voz dos oprimidos. Depois da internet e outras novas tecnologias, a gama de possibilidades explodiu ao ponto de deixar muita gente maluca de tanto ler para ficar “bem informado”.
Blogs, Orkut, Twitter, Youtube, Facebook, Flickr, Delicious, Digg, Meneame, Webeame, Fresqui, webtv, postcad, etc. Embora pouca gente saiba a utilidade real de cada um desses canais, muitos acreditam que a grande alternativa para levar informação a todos seria oferecer internet – e principalmente banda larga gratuita-- para toda a população. Afinal, tudo está ou pode ser incluído na web. Que o diga o Google.
Entretanto estamos longe desse mundo ideal. A população de internautas é formada por 65 milhões de indivíduos, incluindo aqueles que acessam a rede no trabalho, em instituições de ensino, lan houses e em casa. Apenas um terço da população brasileira (de 191 milhões de pessoas) tem contato com a web — muitas vezes esporádico e sem qualidade de conexão. Ou seja: 126 milhões de cidadãos permanecem fora do universo virtual.
Por outro lado, a inclusão digital de um terço do povo contrasta com a capacidade dos internautas de evitar o lixo cibernético e compreender as leituras feitas no monitor. Isso sem falar no analfabetismo que atinge 19 milhões de pessoas — e na incapacidade de milhões de alfabetizados de entender um simples texto de dez linhas.
Esses problemas tornam o desafio da democratizar os meios de comunicação mais complexo. Inclusão digital, interferência na regulamentação do setor, valorização de imprensa alternativa, enfim, tudo isso para quem e para quê? Como na rede, tudo parece estar interligado, no mesmo espaço e de forma simultânea. Como na fala da estudante Estela registrada na conferência iguaçuense. Ela ignorou o debate sobre bits, hertzs, frequências e concessões para extravasar a sua inquietude no microfone: “Estou aqui para denunciar a violência cometida pela direção do colégio onde estudo”. Falou e disse.
* Alexandre Palmar é jornalista e dirigente sindical em Foz do Iguaçu. Artigo publicado originalmente na revista Escrita, edição 9.
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