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“Casal 20”, o amor não tem limite
Ter, 03 de Abril de 2007 00:00
por Pedro Lichtnow


casal_06Marcelo de Oliveira e Jaqueline Lichtnow, ambos com 34 anos, são almas com personalidades difusas. Ela é uma pimenta, um artefato preparado para explodir. Não existe meio termo para a moça. Direta e objetiva, o negócio acontece ou não acontece. Marcelo é o oposto. Calmo, passivo, bastante descontraído. Daquelas pessoas ‘carismáticas’, que cativam pelo sorriso largo. Duas freqüências diferentes que se cruzaram pelos caminhos da vida.

Talvez o termo ‘alma gêmea’ soe um exagero, pelo modo distinto de cada um, mas certamente os dois são completos quando juntos, feito unha e carne. Quem sabe seja essa contrariedade comportamental responsável pelo sucesso do namoro, já bem encaminhado ao altar. A fórmula segue a risca do velho dito: “Opostos se atraem”.     

A história do casal começou há mais ou menos seis anos na Apasfi (Associação de Pais e Amigos dos Surdos de Foz do Iguaçu) devido a um problema em comum. Os dois são surdos, mas com personalidade suficiente para superar barreiras e obstáculos impostos pela frágil audição.

Para se comunicar, usam várias ferramentas e as novas tecnologias. Eles têm aparelhos celulares gêmeos, por onde se comunicam através de vídeo-mensagens. Muito mais rápido e eficiente. Ao pé da letra. Também conversam pelo programa de MSN. Sem falar que Marcelo tem máquina fotográfica digital e câmera de vídeo para registrar os momentos felizes. “Viu só, ele é chique”, comentam os amigos.     

Cotidiano - Marcelo já foi de tudo um pouco nessa vida. De pedreiro a eletricista. Hoje, trabalha como montador de móveis em uma empresa de transporte da cidade. Já Jaqueline está desempregada, pois tem sido difícil conseguir emprego apesar do esforço da família. São poucas empresas que aceitam ou tem programas específicos para portadores de necessidades especiais. Mas já trabalhou na prefeitura de Foz.

Desde o início do relacionamento, vivem um para o outro. Passeiam, viajam sozinhos, mas também são quase sempre rodeados por familiares e amigos. O que pode e deve-se chamar de “Casal 20”, lembrando antigo seriado de televisão. O casal é autônomo, altamente independente.

Ano passado, viajaram para Porto Velho, para conhecer os pais de Marcelo. Pó e estrada que parece não ter fim, pois são mais de dois dias e duas noites de chão. Participaram de torneios esportivos em várias cidades (ele é nadador e ela jogadora de vôlei), conheceram o mar, a praia, curtiram carnaval, acamparam com amigos e o que puder imaginar. Apresentam um convívio social de admirar.

casal_07Comunicativos - O problema físico parece sem muita importância para os dois. As adversidades nunca os impediram de alcançar um objetivo. Eles quase nada escutam. Jaqueline sente apenas a vibração dos sons. Algo como o ritmo do bumbo de uma bateria, mas em relevância sonora bem inferior. Ele apresenta patamares de audição em nível semelhante.

Apesar disso, são muito comunicativos. Da sua maneira, é claro. Falam através da língua dos sinais, o Libras (Língua Brasileira de Sinais). No mundo deles, muitos dos ditos ‘normais’, sem problema nenhum, são os ignorantes, os verdadeiros analfabetos da história.

Na Apasfi, eles receberam e recebem ainda hoje auxílio e orientação para a sociabilidade. Aprendem muitas coisas, além dos sinais. São preparados para a vida, para enfrentar as barreiras dentro da capacidade de cada pessoa, sem se rebaixarem ou intimidar pelo problema físico ou por parte da sociedade ainda preconceituosa.

Além disso, vivem em comunidade. “Mais do que isso, somos uma verdadeira família”, disse Marcelo através de sinais. Quando um surdo realiza um almoço, uma festa, por exemplo, todos comparecem, um por um, sem falta, no horário combinado e nenhum segundo a mais, nem a menos, ao melhor estilo inglês.

casal_08Campanhia de luz - Eles devem casar no segundo semestre deste ano, depois que Marcelo completar a Crisma, um ritual católico. Pelo regimento, somente com este título, o rapaz pode casar na Igreja. Marcelo já está, inclusive, preparando a residência onde os dois pretendem morar. A casa foi cedida pela mãe de Jaqueline, dona Margarida. Estava crua, com divisórias simples ou inexistentes em alguns cômodos. Agora dá gosto de ver.     

Ele aumentou e construiu novas peças e divisórias, pintou, substituiu parte das redes elétrica e hidráulica, instalou novo forro e tudo um pouco. Também montou um sistema diferenciado de campainha. Quando alguém aperta o interruptor, em vez do barulho convencional do ‘dim-dom’, acendem-se três lâmpadas internas da casa. “Eu vi na casa de um amigo e achei interessante”, gesticula.

Perfeição - Um dos lemas dos surdos, como disse Elke Lichtnow, irmã de Jaqueline e interlocutora da entrevista concedida ao Megafone, é o seguinte: “Eles (surdos atendidos pela Apasfi) buscam sempre o melhor”.

A idéia é mais ou menos essa: Se puderem viver bem, vão lutar até a última gota para conseguir, sem medir esforços. “É a filosofia da nossa vida, uma forma de sobrevivência”, afirma Jaqueline em linguagem de sinais. E a tradutora Elke reforça: “Tendem a ser sempre os melhores em tudo o que fizerem”.

Por todo esse modo de vida e comunhão, os dois vivem em lua-de-mel, mesmo antes do casório. Ela com seu ciúme de amor e ele com seu jeito despojado e sereno de ser. O casal transformou a deficiência física em eficiência em todos os sentidos.
“Casal 20”, o amor não tem limite
 

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