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“Brava Gente” mostra cidadãos exemplares para comemorar 4 anos do Megafone
Qua, 23 de Março de 2011 00:10

O síndico do Centro Cívico

Baiano-2203b

 
* Pedro Lichtnow
 
Ao desembarcar, por volta das 14 horas, em uma das vagas adjacentes, dispostas na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico, em Curitiba, do meu Mitsubishi Lancer bordô, ano 1998, ainda adesivado pelas acusativas fitas de lacre prata, fixadas ‘prazerosamente’ pelos fiscais do Diretran – há cerca de duas semanas guincharam o veículo por permanecer em estacionamento irregular – olho para o lado e ouço a um chamado:

 - Ei. Vai deixar o carro aqui, moço?

 - Não. Estou procurando aquele senhor, o velhinho que cuida dos carros.

- Tudo bem. Ele está na frente da Assembleia (Legislativa do Paraná).

Sigo, então, em direção ao portão de acesso à ALEP, quando avisto um senhor franzino, de boné sujo, daqueles entregues em campanha eleitoral, com calça social larga, cor bege, camisa polo branca por dentro da calça e uma agilidade de menino, caminhando depressa, com amplos e marcados passos.
- Senhor, lembra-se de mim? – disse

baiano2203dNa semana passada, disse que gostaria de produzir uma reportagem sobre o trabalho do senhor, aqui, em frente à Assembleia.

- Sim, lembro, respondeu de prontidão o velho, de muitas e espessas rugas no rosto, ostentando um vasto sorriso e uma impressionante vitalidade, contrariando a aparência anciã. 

- Vamos, vamos conversando, enquanto trabalho. Pode perguntar!

Sem indagar qualquer coisa, disse-me, o velho, em uma clara e evidente autoafirmação:

- Estou aqui há 56 anos. Todos me respeitam, confiam em meu trabalho e querem bem. 

Depois da breve retórica, perguntei-lhe, o nome. Baiano, como é conhecido, leva de batismo e na identidade, a assinatura de Osmar de Lourdes Pinto. Bastante falador, uma verdadeira metralhadora fonética, Baiano orgulha-se de nascer em Curitiba – apesar dos familiares nordestinos -, e morar há cinquenta anos no mesmo bairro, o qual não me recordo.

Um das principais características do encanecido Baiano, prestes a completar 80 anos, certamente é a comunicação. Ele fala o tempo todo, a todo instante, com todo mundo: seguranças, funcionários dos estabelecimentos próximos, pedestres que transitam pela avenida (...) e fala sobre tudo. Pergunta, questiona, conta piada, chama a atenção por onde passa pelo tom estridente da voz e principalmente, enaltece a própria função. É um farrista nato, disfarçado de ‘tiozão’.

Sente muito orgulho do trabalho. Postura, esta, que pode confundir-se, facilmente, com altivez, quase soberba, quanto ao desempenho da função que realiza há mais de meio século. 

baiano2203ePudera! O senil Baiano relembra dos velhos tempos. Diz que começou trabalhar em frente ao Palácio do Governo, há mais de cinco decênios, onde permaneceu por 27 anos.  “A convite do Doutor Clóvis, passei a cuidar dos carros que ficam em frente à Assembleia (Legislativa), depois de conversar com o diretor da Casa, na época”, comenta.  

Baiano afirma ter conhecido e convivido de perto com várias personalidades da política paranaense: “Sou do tempo do Aníbal Cury, Paulo Pimentel, do Plínio Pereira da Costa, do Ney Braga e do José Richa, pai desse governador de hoje, esse menino, o Beto Richa”, exalta.

Todas essas figuras públicas, sublima Baiano, cativaram esmero e simpatia por ele. Se isso procede, dificilmente saberemos. O fato é que, no quadrado periférico formado pelo Palácio do Governo, Assembleia Legislativa, Tribunal de Contas e Tribunal de Justiça, não há motorista que não conheça ou pelo menos já ouviu falar desse avelhantado cidadão.

No decorrer da conversa, por exemplo, vários motoristas acenaram para o velho, o cumprimentaram ou mesmo deixaram o veículo sobre a sua responsabilidade, confirmando o carisma e respeito.  Alguns, inclusive, cederam, provisoriamente, às chaves do carro para ele cuidar, enquanto cumpriam os afazeres profissionais em algum prédio cívico.

A assessora parlamentar e assistente social, Maria Ezi, atesta a confiança neste nobre e pobre guardador de carros: “Muitas vezes, entregamos nossas chaves para ele. O Baiano é de extrema confiança e todos zelam por essa figura querida”, ela diz. Baiano diz que a confiança e a credibilidade adquirida nestas décadas de serviços, resultaram em apoio e incentivos de todas as formas recebidos por ele. “Eu não recebo apenas dinheiro e gorjetas. O pessoal sempre me ajuda com roupas, sapatos, comida (...) mas não cesta básica, essas coisas. E sim, uma refeição na hora do almoço, por exemplo”, enaltece.

Quando, discretamente, insinuava em questioná-lo sobre a receita mensal com as gorjetas, o perspicaz senhor, apercebeu-se de minha intenção e logo disparou: “Entre as roupas, as gorjetas e a comida, você pode colocar aí R$ 1,2 mil. Não, não, anota, R$ 1,5 todos os meses”.  

A maior gorjeta recebida, segundo ele, pertence ao desembargador Antônio Loyola. Todo fim de ano, Baiano ganha R$ 100 e uma doação de roupas usadas do referido desembargador. “Mas recebo também remédios de médicos que me conhecem, além de muitos presentes”, anuncia.

baiano2203f

Há cerca de dois anos, Baiano quase perdeu a vida em um atropelamento em frente à Assembleia. Dizem às testemunhas que ele foi arremessado, exageros à parte, por cima da estação-tubo. O acidente comoveu muita gente que lhe prestou socorro imediato. Na fase de recuperação, Baiano recebeu a ajuda e o apoio de alguns ‘amigos’ médicos, doutores que o conhecem de tempos. O episódio deixou marcas pelo corpo, como o joelho deformado e algumas cicatrizes evidentes.

A marca mais dolorida, no entanto, segundo a vítima, não foi física, mas emocional, de revolta. “O sujeito que me atropelou fugiu e depois de um tempo, quando eu estava recuperado, apareceu de forma suspeita, perguntando o que havia ocorrido, como se fosse desentendido. Isso me revoltou muito, mas preferi fingir que não sabia”, conta.  Enfim, caso superado! 

Por quase duas horas, acompanhei este senhor de aparência frágil, mas espírito reforçado. Enquanto conversávamos, inúmeros motoristas requisitavam a atenção do velho. Todos estampavam o sorriso ao referir-se ao Baiano.

- Você conhece o Baiano, abordei um motorista?

- Claro. Eu trabalho aqui na Assembleia. Quem não conhece o Baiano. Esse cara é muito solicitado aqui, disse o assessor Rodrigo Périco. 

 Baiano prioriza o atendimento de qualidade e a educação. Disse não compreender e condenar o tratamento de intimidação aferido por outros guardadores de carros que impõem medo aos motoristas. “Eu não aprovo esse comportamento de intimidação. Os guardadores de carro precisam ser educados e humildes com os motoristas, porque ninguém é obrigado a pagar”, disse.

Ele diz aceitar qualquer contribuição, sem exceção. “Eu pego dez centavos, cinco, sem problema algum. O importante é agradecer as pessoas”.

O advogado Egídio Munareto, embarcado em um automóvel Mercedes Benz prateado, confirmou a afirmativa de Baiano. “Ele aceita qualquer ajuda, de qualquer valor”, disse ao parar, momentaneamente, o veículo no meio da avenida, para cumprimentar o zelador de carros e entregar algumas moedas. 

Ao acompanhar por um tempo o trabalho de Baiano, percebi a capacidade comunicativa e mesmo política deste síndico de automóveis. Ele é muito mais político, diplomata e comunicólogo que a maioria dos respeitáveis parlamentares da Alep ou sensatos juízes, acolhidos nos onipotentes edifícios do Centro Cívico. Baiano é apartidário.

baiano2203g

É amigo de todos os políticos, independente de sigla. Todos simpatizam e tem esmero por este simpático e falador velho de alma jovem. Honestos, corruptos, indecisos e omissos são cativados pelo singelo poder de persuasão de Baiano na hora de coletar moedas e donativos. Amigo de todos, Baiano diz estar atento aos últimos acontecimentos da Assembleia Legislativa.  O humilde trabalhador não acredita fielmente nos fatos divulgados pela mídia, que remetem à moralização e a “faxina” ética, promovida pela atual gestão. “Eu sei que tem muita gente na geladeira, sem culpa alguma, perseguida apenas por ser de outro grupo. Não acredito em toda essa história de moralização”, desabafou.

A conversa com Baiano terminou com um simples pedido e um sorriso transparente.

-  Menino. Quando você publicar essa matéria, traga para mim. Quero arquivar e mostrar para os meus netos, olharem.

Sem dúvida, depois de publicar a matéria, vou procurar esse nobre e pobre senhor, no mesmo lugar, na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico, em Curitiba, onde trabalha exemplarmente há mais de 50 anos, para entregar uma cópia da reportagem.  Espero, apenas, que meu Lancer, modelo 1998, bordô, esteja sem esses horrorosos adesivos acusativos.

 

Pedro Lichtnow é jornalista e editor do site Megafone. Dúvidas, sugestões e críticas devem ser endereçadas ao e-mail do autor: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

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