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O vento, a vela e a vida na avenida
Qui, 26 de Agosto de 2010 17:47

(*) Wemerson Augusto

Manhã gelada, céu armado, ventos constantes e pouquíssimas cores no caminho. O clima era de pouca vivacidade naquela segunda-feira. Torcia que fosse o último dia de inverno. Pedia seu fim como um eterno companheiro do sol, da lua e das emoções do calor. Queria ver o amarelo no horizonte. Eis que me aparece, de longe, um vermelho buliçoso, bem abaixo de um dos altos postes que iluminam a Avenida Tancredo Neves.

O vermelhão fazia um contraste ao enjoativo vento. Distante, eu olhava aquele colorado e imaginava dezenas de coisas. O rubro tremulava, saltitava. Lembrei o movimento do toureiro com seu pano. Concentrei na cena e não desviei mais o olhar. Enquanto caminhava em direção ao não identificado, ficava ainda mais curioso para tentar descobrir rápido, o que poderia ser. A cada passo, uma nova qualificação.

Pensei em varal, ocupação, lona enroscada e propaganda. A imaginação corria veloz e natural. Mas não o suficiente para acertar realmente o que acontecia no local. Percebi que mais pessoas observavam o movimento. Carros, motos e coletivos diminuíam a velocidade, possivelmente, para tentar entender o fato. A frota de ônibus, que transportava os funcionários da usina, também pisou no freio para conferir o episodio.

O vento deu mais uma solapada, o necessário para levantar o tecido e revelar as pernas e curvas de uma mulher que permanecia há horas agachada. Aparentemente o caso começava a ser desvendado. A curiosidade generalizada em saber o que movia a moça, de nádegas volumosas, a ficar de costas e agachada, aumentava a cada minuto. Muitos admiradores e gaiatos enfileiravam no acostamento da avenida.

Os mais afoitos nem disfarçavam. Lascavam o olhar direto nas pernas torneadas e membros íntimos. Alguns disparavam dizendo ser uma deusa. Um grupo mais conservador preferiu apostar em obra do capeta. Todos na redondeza estavam extasiados. Porém, a maioria temia que a aproximação pudesse assustar a cobiçada mulher.

Mesmo gostando da cena, Bendito foi até a moça. Sua primeira ação foi colocar a mão sobre os ombros da donzela. Nesta posição permaneceu por um bom tempo, para delírio e inveja do público. Bendito, morador de rua, queria apenas tomar um trago. A jovem pediu para ele ficar um pouco mais. Prometeu lhe dar além do gole de cana, uma galinha que sobrou do despacho. Mas para isso, ele precisava ficar na frente do vento para ajudar a moça acender as velas.

O texto foi publicado originalmente na Guatá. (www.guata.com.br)

O vento, a vela e a vida na avenida
 

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