|
|
Qui, 22 de Julho de 2010 00:43 |
A frase é do professor Arthur Bernardes Amaral, autor do livro “A tríplice fronteira e a guerra ao terror” (Editora Apicuri, 312 páginas, primeira edição em janeiro de 2010). “O problema de terrorismo na tríplice fronteira surge em função dos atentados terroristas na Argentina A própria noção de tríplice fronteira nasce vinculada com essa questão. Antes era mais comum chamar a região de três fronteiras”, recorda. Ele concedeu uma entrevista ao Portal H2FOZ durante recente passagem por Foz do Iguaçu para o lançamento da obra. A conversa ocorreu na Livra Kunda, que intermediou um bate-papo horas antes do debate que Amaral iria participar no PTI (Parque Tecnológico Itaipu). Amaral é graduado em Ciências Sociais, com foco em Ciência Política, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente, é professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisador associado do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ. Portal H2FOZ - Qual a origem dessa hipótese da região abrigar células terroristas? Arthur Bernardes do Amaral - O problema de terrorismo na tríplice fronteira surge em função dos atentados terroristas na Argentina [em 1992, a embaixada de Israel na Argentina; e em 1994, a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA)]. A própria noção de tríplice fronteira nasce vinculada com essa questão. Antes era mais comum chamar a região de três fronteiras. E nesse momento, quando surge a hipótese do terrorismo, cria-se o termo tríplice fronteira para se referir à região. E dá essa idéia, não de três cidades próximas, isoladas, ilhadas entre si, mas sim de um todo coerente, uma verdade entidade tríplice. Ela surge com essa carga de problema, a idéia vem carregada negativamente. E a boa parte da responsabilidade por isso é a Argentina porque a caça aos culpados pelos atentados chegou à região. H2FOZ - Como ocorreu isso, quais foram os protagonistas dessa história? Amaral - O incentivo à caçada partiu de Buenos Aires. E o grande ator desse processo de acusação talvez foi o ministro do Interior do presidente Carlos Menem (1989 a 1999). O ministro Carlos Corach foi o cara que pela primeira vez, lá em 1997, chamou Ciudad del Este de “Santuário de terrorismo. Ele criou a expressão que depois, a partir de 2001, todo mundo usou. Depois, com os governos de Fernando De La Rua em diante, com Nestor Kirchner e Cristina Kirchner houve um distanciamento dessa política. A Argentina, a partir de 2003, com Nestor Kirchner, tem uma postura mais neutra. Nestor Kirchner e Cristina Kirchner foram seguidamente a ONU, levantaram a questão da AMIA, mas não tocaram na tríplice fronteira. Eles separaram os atentados da região. Nesse momento, os Estados Unidos substituem a Argentina, então grandes aliados, pelo Paraguai. H2FOZ - Como você alia o Grupo 3+1 (Argentina, Brasil e Paraguai + Estados Unidos), criado para debater a segurança na região e ter uma posição consensual sobre o tema. Os Estados Unidos participam das reuniões, mas, às vezes, antes ou depois dos encontros, mostram posição contrária ao organismo? O instrumento perdeu a validade? Amaral - A idéia é trazer e domar a posição norte-americana. Ele é conveniente aos países sul-americanos porque, pelo menos na teoria, existe um representante dos Estados Unidos que diz concordar com os comunicados conjuntos anuais do grupo. Do outro lado, antes ou depois dos encontros uma ou outra autoridade dos EUA vai ao Congresso e levanta novamente as acusações de existir terrorismo na tríplice fronteira ou financiamento ao terrorismo. Um dos momentos de crise entre os países foi quando partiu uma acusação dos Estados Unidos uma semana antes do encontro anual do 3+1. Em 6 de dezembro de 2006, uma semana da reunião do grupo, o Departamento de Estado acusou, unilateralmente, empresários da Galeria Pagé (em Ciudad del Este) de financiar o Hezbollah e Hamas. Isso foi uma afronta à articulação coletiva. À época ouvi de duas ou três pessoas de Brasília, de diferentes setores do governo, que a posição era romper a participação no organismo. No ano seguinte, as acusações suavizariam o discurso. As acusações, na maioria, eram dos militares, do Comando Sul, uma das subdivisões do Pentágono. Eles tinham que falar isso para justificar o orçamento. H2FOZ - Dentro desse cenário, alguns diplomatas, em solo brasileiro, isentam a região, mas lá nos EUA elas levantam suspeitas contra fronteira? Amaral - Falta de coerência, contradição, cínico, cretino, algo recorrente no governo Bush. Era a política do “bate e assopra”. Aqui falam para o público brasileiro. Lá no congresso americano, para justificar o trabalho feito na América do Sul, eles mudam o discurso. H2FOZ - O livro analisa os fatos até 2008. Mas agora, no governo Obama, qual tem sido a postura dos EUA? Amaral - O foco é até 2008 porque é o fim da declaração formal a ‘Guerra ao Terror’. No pós-guerra ao terrorismo, o governo Obama não tem tão claramente políticas especificadas para a tríplice fronteira. Ele busca a resgatar a coerência norte-americana, busca resgatar as parcerias em forma de cooperação e não de acusação. Essas diretrizes gerais, do que seriam uma Doutrina Obama, mais focadas no multilateralismo do que unilateralismo, mais focadas na coerência do que na segurança pela segurança, refletem no nosso caso específico da tríplice fronteira. Por quê? Porque as declarações e acusações relativamente cessaram. Existe uma preocupação com os ilícitos transacionais e como isso pode refletir no terrorismo. As coisas agora estão feitas como devem ser feitas, não são mais discutidas a toda hora numa arena pública. H2FOZ - Como você avalia a cobertura da mídia nesse processo de dar eco às acusações de pessoas que demonstram discursos antagônicos? Amaral - Os jornais são utilizados. Eles viram espécie de mais um ator na história, mas não um ator autônomo, ele dá a voz a pessoas que interesses específicos. H2FOZ - A mídia local, de forma, faz um trabalho de defesa da região, mas qualquer comunicado dos EUA repercute na imprensa nacional com muito mais efeito. Amaral - Esse é o dar corda para esse tipo de argumento. São poucas as pessoas que têm a preocupação de checar as fontes, de saber onde veio a especulação. A maioria das pessoas vai ler as informações e tomar como verdade sem problematizar. Eu tenho a sincera impressão que boa parte das fontes não identificadas pela mídia, principalmente a norte-americana, é do Pentágono. Duas semanas antes de vir ao Brasil, o cara solta acusação na mídia americana, isso repercute no Brasil, quando a autoridade chega aqui sua visita ganha importância maior. A mídia, às vezes, prepara a arena pública para visitas das autoridades norte-americanas. Não que a mídia seja ruim, ingênua, ela tem consciência disso, se deixa utilizar pela repercussão, circulação, audiência... H2FOZ - Você estudou caso por 10 anos. Você encontrou uma prova cabal relacionando à região ao terror durante esse período? Amaral - Tem momentos das retóricas de acusação. Pós 11 de setembro a preocupação era, inclusive da América do Sul, era identificar ações operativas e não só de financiamento (ao terror). Paulatinamente, ao longo dos anos, nada foi encontrado, nenhuma comprovação. A partir de 2005 e 2006, surge esse argumento do financiamento ao terrorismo. Em 2006, o caso da Galeria Pagé, foi o auge. Mas tem a questão de comprovar os vínculos. É possível conceber que exista grande movimentação de dinheiro informal, mas nada tem estabelecido que isso seja utiliza para financiar o terrorismo em si. Mesmo assim, você não tem como comprovar que o recurso enviado, por exemplo, enviado ao Líbano, seja utilizado para o terrorismo. Uma vez o dinheiro lá (Oriente Médio) é difícil rastreá-lo. Além disso, o Brasil tem postura diferente dos EUA em relação à classificação do terror. O Brasil classifica atos de terrorismo e não grupos terroristas. Nesse caso, o Brasil não considera o Hamas um grupo terrorista. Obviamente, o Brasil condena ações violentas, a luta armada que afeta civis e inocentes, mas não o considera um grupo terrorista. Mesmo atos terroristas de Estado são condenados (pelo Brasil). H2FOZ - Existe fundamento na tese que os EUA têm interesse na região por causa do Aqüífero Guarani? Amaral - Até onde consegui identificar a suspeita que os Estados Unidos pudessem utilizar a suposta presença terrorista para tomar posse do Aqüífero Guarani surgiu muito depois da invasão norte-americana ao Iraque (em 2003), pelo menos com mais força com a invasão norte-americana ao Iraque. Isso, do ponto de vista acadêmico, precisa tomar muito cuidado em relação as fontes. As minhas fontes não permitiram concluir. Há, entretanto, sim, uma coincidência: a tríplice fronteira está no coração do Aqüífero Guarani. O que não dá tanto força a esse argumento é que aqui é mais um ponto em cima da reserva, pois o Aqüífero Guarani é gigantesco. Aqui obviamente é a junção de rios estratégicos, tem Itaipu, mas creio ser mais uma coincidência. Quem mais articulou esse argumento foram os movimentos sociais, da esquerda antiimperialista. Ele tem toda uma coerência interna, uma racionalidade, faz sentido ficar com um pé atrás, não é uma loucura, mas é difícil afirmar. H2FOZ - Descartando esse argumento, qual seria a grande justificativa para essa ofensiva para cima da região? Amaral - Tirando a tríplice fronteira do debate, você pegando a tríplice fronteira simplesmente como um ponto sensível do Brasil, Paraguai e Argentina, jogando o argumento todo num aspecto diplomático maior. Esse ponto sensível o Paraguai, por exemplo, poderia utilizar para negociar a lealdade dele entre Estados Unidos e Brasil. Isso ocorreu de 2003 em diante. Os Estados Unidos apostaram nessa ficha de fragmentar o Mercosul por dentro e tinha o presidente do Paraguai, Duarte Frutos, no governo como aliado. E o vice-presidente, Luis Castiglioni, era muito próximo de Washington, era o principal articulador da parceria com os norte-americanos. Foi nesse momento que aconteceu a primeira visita de um secretário de estado, em 50 anos, ao Paraguai, quando Donald Rumsfeld, veio até Assunção. Um mês depois Castiglioni estava em Washington. Então, nesse momento, houve esse jogar, com o Paraguai dizendo: “olha Brasil e Argentina, posso me aliar aos Estados Unidos com mais clareza, você não farão as concessões e incentivos requeridos dentro do Mercosul?”. Portanto nesse nível diplomático a tríplice fronteira foi instrumentalizada. H2FOZ - Para finalizar, qual é a origem do interesse pelo tema? Amaral – Foi uma conjunção de fatores escreve sobre esse tema. Ainda na graduação me interessava mais pela América do Sul. Achava que a gente olhava demais para o Norte, Europa e Estados Unidos. Tinha ânsia gigantesca para saber mais sobre Argentina e Paraguai. Depois comecei a estudar, com amigos, questões de segurança. Tentando juntar os dois temas, América e segurança, cheguei até a tríplice fronteira e busquei formatar um trabalho mais denso sobre o assunto. Por quê? Porque toda a maioria das fontes que eu conhecia era de fora, sempre na visão estereotipa. Eu me perguntava: O que vinha antes?, Será que foi sempre assim?. Será que é possível resumir toda a realidade em poucas palavras, em 30 páginas? Vi a necessidade de preencher essa lacuna no mercado editorial brasileiro. Não encontrava materiais que apontassem as pessoas e atores dessa política. Dizem “o Brasil”, “a Argentina” ou “o Paraguai”. Minha preocupação foi dar nomes aos bois. Escrever: foi essa pessoa que falou essa coisa, ele é o responsável por isso. As políticas saem da boca de alguém, que tem uma carteira de identidade. O livro é para escapar dessa idéia da especulação. H2FOZ - Chegou a uma conclusão? Amaral – Escrevi com base nas fontes, na mídia, documentos oficiais, etc, e simplesmente não me proponho a dizer se existe ou não (apoio ao terror). O que eu quero entender é quais são as conseqüências políticas das pessoas que dizem saber ou não do que está acontecendo. Essa é a contribuição: mapear quem fala, o que fala, e porque fala; e não saber quem está certo. Existem argumentos mais coerentes, outros menos. Eu não sou o juiz dessa história. Eu critico a postura de securitizar, de dizer que é um problema de segurança, esse ataque. A crítica principal é a securitizar. Quando você trata coisas como problema de segurança, você dá margem a atitudes extraordinárias. E atitudes extraordinárias, em políticas, nem sempre são muito boas e positivas. (Portal H2FOZ - Alexandre Palmar)
|
Comentar
|
|
PARCEIROS
BOLETIM
MEGAFONE. É só colocar o e-mail aqui e depois validar o link em sua caixa de e-mail. Às vezes o pedido pode ser encaminhado para o lixo eletrônico.
FACEBOOK
|