|
Home Entrevistas Batida contra racismo velado contra os negros - Raimundo Ramos
|
Ter, 27 de Novembro de 2007 00:00 |
Megafone reproduz hoje com alegria uma ótima entrevista do fanzine Cartel do Rap, publicada na edição de dezembro. O bate-papo dos organizadores da publicação com Raimundo Ramos é profundo, polêmico e revelador. É texto, mas vale a leitura. Uma entrevista Salve meus drugues, dia 20 de novembro é o dia da Consciência Negra; nesse dia foi morto o grande líder negro Zumbi dos Palmares. Esse é o nosso terceiro zine, “edição especial - consciência negra”. Mais que especial é a entrevista que trazemos. Vocês irão acompanhar as idéias de Raimundo Ramos dos Santos – Seu Raimundo, como é conhecido – em uma entrevista que aconteceu numa segunda feira de manhã na Av. Brasil onde ele trabalha vendendo cartão telefônico. A seguir a ideologia desse baiano de 49 anos que é negro, mas nunca aceitou ser chamado de Neguinho. Z – Posso chamar de Senhor, ou de você? Raimundo: De você. Você mesmo. Somos da mesma altura. Z – Você é natural de que cidade? Raimundo: Salvador, Bahia. Moro a 26 anos em Foz do Iguaçu. Vim à Foz do Iguaçu em motivo da construção da maior hidrelétrica do mundo que é a Itaipu Binacional. E como eu, a maioria dos negros que estão em Foz do Iguaçu veio em questão de construir a Itaipu e ficou na cidade, escolhendo a cidade para morar. Z – E a maioria desses negros que vieram conseguiram emprego na Itaipu? Raimundo: Conseguiram, sem dúvida, até porque na data, o pessoal da região tinha medo do fantasma que é a barragem, o buracão, faltava muita mão-de-obra aqui na região e teve que importar de diversas regiões do Brasil, Minas Gerais, Cidades do Paraná, Belo Horizonte, Rio de Janeiro; então a maior concentração da raça negra que tem em Foz do Iguaçu, dizendo mais uma vez, foi em questão da Itaipu Binacional e não como a maioria diz hoje que foi em questão da muamba que vieram a maioria. E a Itaipu até uma certa data, ela pegava todos, porque queria número de funcionários, pessoas de coragem e o pessoal vieram. O pessoal daqui chegou muita vez a falar “Ué, se vocês falam que a Bahia é boa, é ótima, o que vocês vieram fazer aqui?”, “Muito bem que você me perguntou isso aí, eu vim pra construir a Itaipu, que vocês tinham medo de encarar o buracão lá”, aí calava a boca, porque muitos tinham medo de encarar. Z – Uma vez você e um amigo seu se acorrentaram, no calçadão da Rio Branco, o que vocês buscavam com essa atitude? Raimundo: Ali foi o começo, o lançamento, a pedra, o primeiro chute na bola, como diz, do Movimento Negro; publicamente foi aquele protesto. O lançamento do Movimento Negro que é o chamado Monarfi (Movimento Negro Anti Racismo de Foz do Iguaçu). Foi os dois companheiros Raimundo Ramos dos Santos e José Mário de Menezes, aonde foi muito forte o que fizemos ali, né, um impacto forte que durou mais ou menos uns três anos eles lançando aquela imagem na mídia pra chamar a atenção. Até que num momento a gente sentia-se um pouco gago, parece que a mídia não ouvia a nossa voz, nós não tínhamos espaço, era o que se percebia; então resolvemos fazer um protesto de uma maneira que jamais foi visto aqui na cidade e muito forte também. E outra, pegamos de surpresa todo mundo, nem os negros 90%, nem a televisão ficaram sabendo, a não ser na hora. Quando amanheceu o dia tava aquele quadro ali, dois negros acorrentados, no tronco e fazendo jejum durante o dia; ali ficamos das três da manhã até as 18:00 hs, né, num sol de 40 graus. Foi em 2000 aquele trabalho. Já fizemos o movimento em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006 e não teve um impacto, né, na intenção do movimento como aquele que foi feito com meu companheiro. Z – Foi o tiro inicial? Raimundo: Foi o tiro inicial. Z – Sobre o Monarfi você poderia falar um pouco mais? Raimundo: Olha, o Monarfi, há muitos anos o pessoal discutia que tinha que criar um movimento, organizar, né, esse movimento em Foz do Iguaçu; mas, o negro, pra te dizer a verdade, uma cultura que ele tem que herdou dos racistas, né, de desunir, é muito difícil unir a raça negra, né, muito difícil mesmo; mas vamos, como diz o ditado, água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Fomos devagar, fizemos uma plenária, não foram, chamamos outra não foram; e um determinado dia num feriado estava no Bosque Guarani, ali começamos a discutir, né, a idéia de criar um movimento sobre o racismo pra combater, pra dizer que chegou o fim dessa prática de preconceito racial. E ali começamos a dialogar e saiu a data e local pra criar e aprovar o estatuto do movimento. Em média de 40 a 50 dias daquela data, foi já no ano 2000, fizemos uma assembléia, aprovamos o estatuto, criamos uma diretoria e quando foi falar em protesto abriu todo mundo, mas teve o Seu Raimundo e o Seu José Mário que encarou. E como o objetivo do movimento é buscar os negros, conscientizar, levantar a auto-estima, né... Hoje é uma raridade você ir nos grandes centros comerciais e ver um negro lá. Será que ele não tem um dinheiro? Ele procura se esconder; e a gente sempre diz “ocupe seu espaço”. Eu tenho observado em lugares que alguém bate em meu ombro e diz “parabéns, eu te admiro” e eu digo “porque? Porque eu sou negro?”, “não....”, aí gagueja, né. Então o negro precisa manter a sua identidade “eu sou negro e vou entrar como negro”, então o movimento nasceu pra isso. O negro não precisa andar de camisa social, de manguinha comprida, o rostinho limpo, não pode deixar barba, não pode andar com um boné assim, pro pessoal achar que ele é um negro que é moreninho. O negro tem que parar de achar que ele é moreninho, que é clarinho, o negro é negro mesmo. Então o movimento nasceu pra tocar nessa ferida mesmo. Z – O MV Bill lançou o livro na Daslu e ele foi bastante criticado. Um escritor, o Ferrez, de favela também, escreveu um artigo criticando a atitude do MV Bill. Ele escreveu: “...Um irmão de cor falando como branco na cara dura, compactuando com um dos programas televisivos (jornalístico?) mais prejudiciais ao nosso povo”. O que você acha da atitude do MV Bill e das críticas que ele recebeu? Raimundo: Olha, eu assisti a palestra do MV Bill aqui em Foz do Iguaçu e achei de grande importância, né, aquilo ali; só uma coisa que eu achei um pouco engraçado é que eu pensei que era os irmãos, que eram os negros que iam ta ali e foi mais uma elite e eu não sei qual foi o efeito que surtiu isso ali, né; enquanto que diversos irmãos podiam ir pra desabafar o que acontece na cidade, as barreira, então por isso que eu pensei que ia a maioria dos manos e não a classe dominante, a burguesia, né. No entanto teve alguns irmãos perguntando se queriam colocar uma mordaça na boca dos negros que começou a falar; então a maioria, como o companheiro Eliseu mesmo, começou a se manifestar da falta de tudo na Cidade Nova; começaram a querer barrar e o MV Bill deixou bem claro que aquele encontro que estava ali, assim dizendo, era pra ouvir a voz dos irmãos, entendeu?; e fazer um raio x do que acontece na cidade. O que esse escritor que criticou, eu não conheço, e pra mim não é novidade porque todas as ações positivas, porque um negro lançou um livro, entendeu?; e ocupar o espaço dele, não tem nada errado nisso. Ainda mais ele que não tem um curso superior, ele deixou bem claro, ele que nasceu na favela, ele que saiu do nada, então isso não é tão fácil, não é comum no Brasil. Então dele sentar no meio da burguesia, eu não li o livro ainda, não posso falar detalhes, mas em questão que você perguntou que ouve a crítica dele, que o negro tem que ficar só na favela; eu não sei se não é também um pouco de ciúme, eu não sei se é a expressão certa de dizer. Porque o outro fez, mas talvez não alcançou o que o MV Bill alcançou, hoje o nome dele é lançado pro mundo, né; hoje é um negro de sucesso. E o trabalho dele Meninos do Tráfico, a coragem; aí alguém diz “não, ele acertou com os bandidos, fez negociação”, então faça também a sua negociação e vai e mostra o que ta acontecendo. Porque até hoje a mídia usou isso aí e acredito que ele não fez por maldade pra ganhar dinheiro; que bom que tivesse dez homens da qualidade do companheiro que botasse o dedo na ferida. Z – O Monarfi tem alguma sede? Raimundo: A sede do Monarfi é aonde a direção mora, é aonde a direção trabalha, quando foi criado o movimento em momento algum nós discutimos a possibilidade; claro que há um desejo, uma ansiedade de um dia nós podermos ter uma sede pra transformar em um centro cultural. Mas isso nós não queremos através de negociação, que alguém nos cale, conseguir uma sede, mas você não pode criticar, ter uma sede, mas você não pode falar porque “é nós que mantemos, é fulano que te deu”, então nós queremos andar com nossa perna própria. Hoje nós não temos uma sede, não temos nada, e onde fica o endereço, fica no endereço dos companheiros que trabalham, na casa deles; isso não é novidade, como outros grandes movimentos, grandes congressos iniciou com a própria família. Z – Você acha que existe racismo ao contrário, o negro sendo racista com o branco? Raimundo: Não, não existe. Hoje até existe mais um racismo do negro contra o negro porque é uma cultura, porque implantaram que ser negro não é coisa boa. Você pode observar que 90% dos negros que conseguiram fazer um curso superior e conseguiram fazer sucesso na vida, dificilmente ele casará com uma negra, né, ou com uma morena, que seja. O que a gente tem levantado pelos negros de sucesso é que ele passou muita dificuldade e ele não quer isso pros filhos dele, entendeu? A família dele não vai passar pelo que ele passou. Então foi aquele embranqueamento do Brasil que a mídia, que a burguesia tentou fazer 100%, cada dia que passa começou a embranquear a nação brasileira. E sobre o preconceito do negro sobre o próprio negro isso foi uma cultura que implantaram, né “ser negro não é coisa boa” então dificilmente você encontrará um negro que tem identidade, né; não a identidade que é feita na polícia civil, no Estado não, é a identidade cultural, da pessoa se assumir, entendeu? Não vestir da maneira que os outros gostam, ele tem que se vestir da maneira que ele se sinta bem. Agora, eu já fui questionado, se eu for falar aqui, mais de 1000 questões, uma pessoa conhecida, bem íntima minha disse “mas Raimundo, para com esse negócio de movimento contra racismo que não existe, você chamar de negro e se ofender. A turma me chama de polaco, de alemão e eu não acho ruim”. Eu falei, fica bem sabendo que o polaco e o alemão não foi chicoteado, não foi caçado, não foi amarrado, não foi morto; a sua raça foi tratada como humana. Então quando nós nos lembramos do povo do passado, nós não estamos vivendo o passado, até hoje sentimos reflexo do que aconteceu no passado. Até hoje mesmo dificilmente eu vejo um negro não seguir os passos do pai, é dificilmente isso acontecer. É pedreiro o filho vai ser pedreiro, é carpinteiro o filho vai ser carpinteiro. Ao contrário do branco que é general o filho vai ser advogado. “Mas tem fulano que é advogado”, é um em cada dez mil. Então fica bem claro, como alguém também me questionou “olha, mas o alemão também tem hora que sente muita mágoa do que aconteceu no passado”. Mas, aconteceu dentro do povo dele, dentro da nação dele, não foi praticado por outra nação, por outro povo, né; pois o alemão aconteceu lá com o Hitler, né, que fez aquela desgraça, mas foi internamente. E outra questão, igual países que começam a aplicar sanções em sua nação e outra nação fala “olha, nós não podemos se meter, porque é a nação dele” e o pessoal aceitou aquilo ali. O movimento negro Monarfi nasceu com a razão de unir, levantar a auto-estima do negro, como a gente tem tentado, buscar igualdade de oportunidade que é tanto falado, mas na prática isso não acontece, né. E reagir sim, não aceitar, não querer essas marcas que o negro é incompetente, que o negro tem que ficar calado, que o negro é o último a falar e o primeiro a apanhar. E lutar pra participar do bolo, o bolo ta aí, a nação é rica, a nação brasileira, mas as pessoas cruzam os braços esperando que aconteça por acontecer. Não. Há esforço, nada acontece por acaso. Z – O Thaíde tem uma música que ele canta que o negro quando faz sucesso compra logo um Kit-Fama, que vem com um carro importado e uma loira encima da cama. Falta união e consciência pros negros, os que se dão bem se esquecem dos demais, ou são casos isolados? Raimundo: Olha, o que eu pude levantar entre os negros de destaque, eu já ouvi bastante que eles se dizem de alta competência, que eles estudaram e lutaram pra chegar e que ninguém depende de movimento, não depende desses barulhos pra chegar lá. Olha em todo seguimento acontece da pessoa se tornar individualista, não olhar o seu próximo, né, então a maioria que eu já conversei, que eu já observei, tenho levantamento, eles se dizem alto-competentes, estudou muito pra poder chegar lá. Eles chegaram lá e não procuram apoiar e ajudar o seu próximo. A gente não vai citar nome aqui porque é a maioria dos figurões brasileiros, dos negros. Tem alguns que até chegou a envergonhar, como o Edson Arantes do Nascimento, né, que demorou tanto tempo e até hoje não reconheceu a filha mesmo; a justiça que obrigou, entendeu? É ridícula essa atitude, ele pregou há muitos anos “vamos cuidar das nossas crianças” e isso há muito tempo, quem estuda sabe disso, que ele deixou essa marca, a mídia fala “ó o Pelé falou vamos cuidar” e hoje não cuidou da filha dele, ta entendendo, todo mundo sabe disso aí. Então demagogia, hipocrisia, isso ta na humanidade, né. Agora, o pessoal diz que as loiras gostam dos negão, mas gostam dos negão jogador de futebol, gostam dos negão cantor de sucesso. Mas de carpinteiro de pedreiro eu não vi, eu fiquei muitos anos aqui e não vi uma loirona bonitona encima de mim não, aí eu fui na Bahia pegar uma negona pra casar, né. (risos). Agora, o racismo existe, dentro da classe média, dentro do próprio negro que mora em periferia, porque isso é uma cultura; acho isso um racismo velado. No supermercado nas lojas o negro vai comprar um produto, é oferecido o inferior, quer uma camisa uma calça a pessoa pega uma inferior; vai no mercado o vendedor oferece o mais barato. Você pode observar as promotoras, às vezes moram em periferia, é pessoa pobre também, pode ser até uma pessoa negra, quando passa um casal branco com criança eles oferecem um produto bom, nunca você vê oferecendo promoção de feijão, arroz, esse tipo aí. São coisas até supérfluas mesmo, mas não oferecem, abaixam a cabeça porque acham que o negro só vai comprar arroz, feijão, só aquelas coisas de primeira necessidade. Se você vai caminhando na rua, isso é uma cultura na nação brasileira, a pessoa observou que vem um negro atrás, segura a bolsa com tudo; quando o negro entrou na loja o pessoal todo olha um pro outro “poxa, o que ele vai fazer?”, ainda mais se o negro entrar numa loja chique, entendeu? Essas coisas têm que combater fortemente, não ficar com vergonha não. Já perdi cliente no meu comércio pela pessoa me dizer “Raimundo, eu não vou vim mais aqui, você mexe com movimento negro, isso não existe, isso já é passado. Eu não vou vim mais porque você vai me denunciar por qualquer brincadeira que eu fizer por questão de crime racial”; eu digo “olha, eu cometerei um crime com você, se eu disser pra você não vim aqui, agora se ta dizendo que não vem mais aqui você não vai vim quando não quiser, quando você quiser vim, você vem. Isso fica a critério seu, você não quer vim eu não vou obrigar você; agora, que eu vou continuar fazendo o movimento enquanto eu tiver vida eu vou. Em nome da lei, da organização brasileira era mantido o racismo no Brasil, forças armadas, todo mundo pra perseguir a raça negra pra ele ser escravo e a legislação permitia. E hoje o que nós queremos é que a lei, que a legislação brasileira vá combater o crime, porque no papel está tudo dez, mas na prática isso não está acontecendo”. Z – Nos Estados Unidos existem vários negros que se destacaram no cinema, na música, no esporte – boxe, basquete. Os negros norte-americanos conseguiram a inclusão social? Raimundo: Olha, eles não conseguiram 100%. Lá é assumido, o racismo é assumido. Não é que ele atingiu o objetivo, o que aconteceu foi a luta deles, até hoje tem dificuldades, quando vão julgar um negro o movimento se reúne para que não seja um branco que vá julgá-lo. Lá existe um racismo assumido; tem dificuldade também, mas bem menos que no Brasil porque lá eles assumiram que existe, publicamente; eles vão pra rua. E aqui no Brasil começa a tapar o sol com a peneira, falar que não existe discriminação. Não que eles assumiram que eles estão bem, mas lá eles assumiram. E não muda tanto, no Brasil o negro tem sucesso na música, no futebol, só no cinema que nós estamos bem atrasados ainda, né, que aqui no Brasil eles procuram pegar o melhor e colocar lá pra dizer que tem. Como no Faustão mesmo nós temos uma nega lá no meio de doze pra eles dizer “Não. tem uma lá, tem uma, tem uma, tem uma...”. 90% dos negros que venceram no Brasil é pelo próprio talento da pessoa, da capacidade da pessoa e não da oportunidade, porque ninguém deu oportunidade. A pessoa do Pelé, “ele é o rei”, era pra dar uma acalmada na questão racial do Brasil que elegeram ele, ninguém fala isso aí, entendeu? Na questão da imagem, de aparecer. Raridade você achar um padre negro no Brasil, um pároco, um arcebispo, isso aí, sendo que o país tem uma média de quase 50% de raça negra e os padres vêm importados de fora. Será que os negros não querem ser padres? Que é isso, para com isso. É uma raridade você ver padre negro, uma raridade; às vezes tem um em umas 300, 500 mil pessoas no Brasil. Então você vê, a padroeira da nação é negra. Então a gente vê que foi uma maneira de calar a boca, deixar o negro contente, “olha!!! A padroeira é negra, os negros estão contentes”, e na verdade não é isso. Então o ponto forte nosso é na prática, a busca de igualdade de oportunidade. Como já solicitei algumas vezes apoio pra buscar mecanismos pra flagrar as empresas negando vagas pro negro com o mesmo currículo com a mesma residência, com o mesmo curso, com tudo, “tem uma vaga?”, “tinha, ontem foi preenchida”. Como é que o negro vai saber se foi preenchida ou não? O negro mora em lugar tal, tem a função tal, mora na mesma localidade do outro. “olha eu quero saber se vocês não têm a vaga mesmo?” “Não, não...”, aí grava eles dizendo que não tem a vaga e quando ele acabar de sair, 20 minutos depois, vai um branco, já tudo armado, combinado, com a mesma função, mesmo bairro e vai conseguir a vaga. Aí na hora o negro entra e leva a gravação “olha, eu tive aqui meia hora antes você falou que já tinha preenchido, assim, assim...”. Eu tentei buscar na mídia pra filmar, mas lamentavelmente a mídia é patrocinada pelas empresas e não vão denunciar, colocar isso aí. Então pertence ao governo viabilizar mecanismos, né, pra denunciar e eliminar, porque enquanto o governo não entrar fortemente nesse sentido vai continuar assim. Agora, quando tem vaga pra servente, pra zeladora, pra motorista, pra guarda, aí eles aceitam. É guarda, zeladora, vai ser só isso aí. Z – O Racionais tem uma música em que o Mano Brown canta “crime, futebol, música... eu também não consegui fugir disso aí, eu sou mais um”. Pro negro só sobrou essas opções, ou há alguma outra chance de inclusão do negro na sociedade? Raimundo: Através da luta há chance da inclusão social, sem dúvida nenhuma, mas isso de braços cruzados não acontece, né, e cada dia que passa você vê que quando ele alcança o objetivo ele sossega; ele luta em torno, ao redor dele. Eu não vou citar nomes aqui, mas eu tenho muitos nomes, né, que lutou em torno da sua pessoa e não pelo bem coletivo. Z – O sistema de cotas em empresas e universidades resolve alguma coisa? Raimundo: Olha, foi muito bom perguntar isso aí, o que tem de negro que vem falar pra mim que é contra a questão da cota, que acha que é uma esmola, que o negro não pode viver de esmola. Isso não é esmola, isso é uma minoria, não chega a 10% de reparo de danos que foi causada na raça negra. Z – Seria uma indenização? Raimundo: Uma indenização. Pelo embargo que colocaram, as barreiras que colocaram na frente do negro pra ele não avançar. Eu já fiz algumas simulações com pessoas aqui em Foz e pretendo fazer futuramente. Vou fazer competições, com três brancos amigos que vão contribuir com o movimento. Três brancos e três negros vão correr uma distância de 50 metros. Do lado que correr os negros, vai ta livre, ninguém vai passar na frente, do lado que os brancos estiverem correndo vai ter algum obstáculo, vai atravessar uma pessoa. Uma vez o negro vai ganhar; a segunda vez também; a terceira também... Bastante tempo. Aí depois vão falar “ó, o negro ganhou, ta vendo que nós negros temos mais força, mais resistência”. Todo mundo viu a corrida. Aí o branco que vai ta fazendo a simulação vai dizer “ah, vocês estão na frente porque vocês correram livres, ficaram livres, não teve obstáculos nada, não teve nenhum na frente, teve uma lombada, nós pulamos, teve um outro cavalete, por isso que nós atrasamos”. Tem que haver uma forma de avançar, isso é papel do governo, porque o governo mesmo cometeu o crime no passado, né, a nação cometeu e tem que reparar isso. Então a questão de cotas é, como os racistas anônimos falam que isso é uma discriminação, começam a botar no ouvido do negro que isso é uma esmola, de chamar o negro de coitado; não, é uma maneira de reparo. Eu tava viajando, dia 4 de novembro e eu tava conversando com uma negra que tava me dizendo que ela discorda “tem 15%, tantos% ao negro, porque não é meio a meio?”. Eu disse que não é que é meio a meio, no mínimo eles tem que garantir isso aí, a instituição de ensino, o negro passou no vestibular ele confirma “olha eu passei e não tem vaga”, é o mínimo. Aí eu fui citar pra ela, você ficou tanto tempo sem votar, as mulheres não podiam votar, ficaram excluídas do processo eleitoral, ficaram excluídas100% nisso aí. Hoje é obrigatório o partido político, se tiver 20 vagas na sua legenda, 5 tem que ser mulher, isso no mínimo, se não tiver, não resiste. Quer dizer que é pra incentivar os homens que é a parte dominante na política, ir atrás da parte feminina que é a maioria no Brasil, trazer as mulheres pra política que é pra ocupar os cargos. É raridade hoje você ver uma mulher num cargo político “ah, tem uma mulher senadora, tem uma mulher ali”, é uma raridade isso aí e elas é que são a maioria. Então eu dei esse exemplo pra dizer, no mínimo isso aí. Então é pra lutar, ir atrás, incentivar, pra participar; e só vai melhorar, vai ter a inclusão social, quando os negros estiverem nas faculdades e não tiver só um lá. A gente vê a evasão escolar da parte da raça negra é demais, né, porque é uma cultura, o filho vai seguindo o pai. A gente tem combatido fortemente, eu tenho visitado igrejas, né, pra mim minha religião é aberta hoje; digo que toda igreja, toda religião, a Umbanda, o Candomblé, tenho falado pras pessoas pra não haver prática de crianças com álcool, com fumo, sou contra. Vou no centro e o de menor tá lá manifestando a crença, mas sem álcool e sem fumo. O maior de idade ele tem o estímulo de fazer o que bem quer, né, mas de menor não. Z – A respeito das cotas ainda, como saber quem é afro-descendente ou não num país de mistura de raças igual o nosso? Raimundo: Isso é questão da pessoa assumir a sua identidade. O que eu vejo é só dessa maneira. A pessoa assumindo a sua identidade e pela formação do crânio; a formação do crânio é um grande ponto, cor da pele, são pontos somáticos, né, cabelo. Se for esperar fazer o exame de DNA, isso é muito complicado, mas a pessoa se assumir. Não uma pessoa branca porque vão ver que a formação do crânio dele é diferente e todo mundo vai saber. Outra hora eu posso pegar isso aí melhor, pra passar pra você isso aí. Agora, até o IBGE, muitas vezes ele inventou, pardo, mulato, é isso é aquilo, isso não existe, é raça negra, e raça negra é aquele que é barrado. Pra ele saber que ele é negro, é só ir nos locais, ir nas empresas e ver como ele é tratado, não tenha dúvida disso aí, tá me entendendo? Agora, exame de DNA, não é esse caso, o pessoal faz muita confusão encima disso, né. Ele tem que se assumir, não é por questão de morar na favela, questão de comprar uma calça ou não comprar, né, é ele saber como é tratado na sociedade e se olhar no espelho, né, e dizer “eu sou negro e eu tenho que lutar por isso”; em questão da cota o que eu tenho falado é bem claro, isso é a minoria de reparo de danos, né, tinha que ser muito mais. O pessoal me cobra aqui em Foz que a gente nem fala no dia 13. Pra mim o dia 13 não existe, é uma data passada, tá entendendo? Pra nós aquilo ali foi um crime que cometeram. O Brasil tinha terra, naquela data ninguém tinha terra demarcada ainda no Brasil e a Princesa Isabel libertou e jogou desamparado, sem nada; então isso pra nós conscientes, foi um crime cometido com a raça negra e aonde começou “vamos ficar aqui?”, os ex donos de escravos, os dominantes “aqui não fica, aonde eu to não fica”, aonde sobrou pros negros? Morro, que hoje é origem das grandes favelas, nos grandes centros, no Rio de Janeiro, Salvador, nos grandes morros. “E então ali deixa, ali não produz nada, vão ficar ali e vão morrer”, é o que acontecia e de noite eles desciam pra arrumar um meio de sobrevivência, né. Z – Então o dia 13 de maio é o dia da mentira? Raimundo: Exatamente, dia da mentira. Tá no papel lá e foi uma farsa também. A gente sabe que a lei foi interesse da Inglaterra, todo mundo sabe, pra haver abertura comercial; na data a Inglaterra era regente do mundo, né, e a gente vê que a libertação foi uma farsa. Z – E o branco pobre que mora na favela? Vou citar o exemplo da minha família. A minha mãe é negra e meu pai é branco. Nasceram filhos brancos e filhos negros. A minha irmã branca terá as mesmas dificuldades de inclusão do meu irmão negro, ou pra ela será mais fácil? Raimundo: Eu digo que não. Quero deixar bem claro essa questão. A partir do momento que ele é branco e veste uma roupa razoável ele vai ser mais aceito. Agora um branco mal sócio-econômico, claro que também ele vai ser barrado por questão de morar na favela, não tenha dúvida. Ele tem certa dificuldade, mas bem menos que o negro, porque ele sabe, ele mora na favela, aí a empresa vê uma maneira de comunicação muito boa, uma aparência naquela pessoa branca, porque a imagem é a que fica, entendeu, a recepção é que fica. Como eu tenho exemplo de amigo meu que mora no bairro, e uma empresa aqui em Foz do Iguaçu falou “venha trabalhar conosco, venha trabalhar, eu vou pagar dentista pra você, eu vou pagar salão inicial de cabeleireiro, eu vou pagar as roupas que você precisa pra você ajudar o nosso pessoal na alto-estima, motivação e sucesso dentro da empresa”; a pessoa não quis, porque ele como vendedor ambulante ganhava cinco vezes mais, mas pelo talento dessa pessoa que era um bom vendedor; e morava lá na beira da Favela do Queijo, lá no Porto Meira e hoje mora em Curitiba. Eu conheço muito bem, ta me entendendo, é uma pessoa branca. Então tem uma diferença, eu quero que você entenda bem isso aí, tem uma diferença de mais de 50%. Por quê? Quando ele vê que é favelado, mora lá na favela e é branco, ta com uma roupa simples “mas isso pode mudar, pode colocar outra roupa, pode ir no salão, arrumar os dentes e podemos usar a imagem dele”; o negro sempre vai ficar na pele, o rosto é negro mesmo, é nariz chato, é cabelo enrolado, ta entendendo? E é isso aí... (risos) Z – A polícia de hoje é o mesmo capitão-do-mato do tempo dos escravos? Raimundo: É, como diz, não muda muita coisa não, como existia negros como capitão-do-mato a serviço dos senhores, batia nos negros, hoje é a mesma maneira. Eu tenho muita dificuldade ainda quando vem equipe de fora da polícia; quando passa só falta quebrar o pescoço pra me ver. Claro, a gente se tornou uma pessoa muito conhecida, 26 anos morando na cidade, passei por diversos seguimentos de movimento e já diversas vezes eles param e quando vêem que é conhecido... A polícia hoje não tem dificuldade porque me conhecem. Porque o negro ele tem que ser conhecido, tem que ter um certo entrosamento, né, aí vão dizer “esse nego é bom, esse não é bandido”, ta entendendo? E tem o próprio negro também que na viatura vai parando pra ver se aquele negro é bandido. Quando me param eu falo “péra lá, aqui você não vai achar nada, vai perder tempo, vai atrás de outro”. Não muda muito do capitão-do-mato a polícia de hoje. Mas isso, eles não têm culpa não, viu, vou deixar bem claro. Eles são mandados pelos nossos governantes, é o que eles aprenderam, né, só vai mudar a nossa polícia em questão de segurança, em todo o sentido, com todo o tipo de polícia é quando se tornar, é possível sim e eu desde pequeno que penso dessa maneira, antes do movimento e tudo, transformar a polícia em amigo do cidadão. Alguém fala que é impossível, eu acredito que seja possível, entendeu? Para o homem não ter medo, hoje não é só os negros não, os brancos têm medo da polícia, entendeu, têm medo; e os governantes sabem muito bem disso, parece que a polícia é pra proteger o Estado que são os governantes, só, e não o cidadão que é o maior bem da humanidade, só no papel isso aí, né. Então eles são mandados, são preparados pra isso. E a questão de segurança vai melhorar, vai haver um diálogo, quando o Estado cuidar melhor da parte da segurança; que é um trabalho especial o papel da polícia, não deveriam ter o tratamento que eles têm. Z – Mas em São Paulo tentaram criar a polícia comunitária, que seria a polícia mais próxima da população. Muitos desaprovaram. Tem até um escritor que escreveu que “polícia comunitária é uma coisa que não dá certo, nunca vi um policial dar bom dia pra ninguém. É sempre o mesmo tratamento ‘mão na cabeça vagabundo’, como se todo mundo fosse vagabundo”. Raimundo: É porque não ensinaram isso Porque não ensinou; só na teoria e coisa pra mídia, isso é coisa de mídia. Mas tem que começar um trabalho, quero que alguém me corrija, porque hoje a polícia só vai no morro... Tem dois grupos, vou deixar bem claro pra população saber, o governo, que a polícia faz parte do governo, só sobe no morro... 90% dos que sobem no morro é pra pedir votos e a polícia pra “mão na cabeça”, pra prender... Então isso tem que ser combatido e falar pro governo “vocês têm que parar, no mínimo cada três meses, o pessoal da saúde, o pessoal da segurança pra visitar o povo e não polícia armada e isso aí”. Eu sou muito criticado dos movimentos que eu fiz aqui em Foz do Iguaçu, de não solicitar... Movimento popular, não as corridas de rua, que depende da segurança do trânsito que eu uso toda a parte policial, toda força eu uso sim, mas nos movimentos, como você mesmo é testemunha disso, eu peço pra que não vá polícia, porque termina havendo conflito; e até hoje, há muitos anos, nunca houve nenhum problema, porque a maior segurança é o povo fazer a sua segurança, né, periferia é periferia. Z – Porque os portugueses não conseguiram escravizar os índios? Raimundo: O primeiro ponto que eu tenho levantado, eu estou falando aqui basicamente 80% de experiência própria, coisa que eu vi pessoalmente, né, poucas coisas que eu falei eu li ou vi na televisão, ta me entendendo. Então eu vou falar de experiência, da Bahia, Minas Gerais, onde tem uma forte raça negra, o pessoal pouco fala, mas lá é muito forte. Tive o privilégio de ser bisneto de escravo, Antônio Pituba e Maria Cerqueira da Cruz que foi minha bisavó; tive o prazer de conhecer eles, eu tinha na média de 8, 10 anos de idade, convivi com eles, né, tive o privilégio, fui criado a maior parte com meus avós, graças a Deus; e Deus deu bastante tempo de vida pra eles e aonde eles tiveram o privilégio de conviver com os índios, né. O primeiro ponto que eu vi, não que eu li sobre os índios é que no trabalho, você podia matar ele, mas ele não trabalhava, enquanto o negro você dava uma missão, um trabalho, sendo chicoteado ou não o negro trabalhava. E o índio não nasceu pra fazer serviço de branco, modo de dizer; o índio não nasceu pra ser vendedor, fazer móveis; não tenho uma palavra específica pra te dizer agora sobre a questão do índio. Então tentavam fazer de tudo, podiam matar todos, mas não trabalhavam, não tinham as habilidades, não foi feito pra isso. Como dizer que uma peça foi feita pro carro, “mas porque aquela peça não é pra uma moto?”; então essa peça não foi feita pra esse fim. Tantos anos, hoje você não vê índio, o pessoal começa a despistar, mas é uma sangria o que fizeram com a cultura, com a raça indígena. Como cometeram aqueles bárbaros crimes com as melhores terras, os melhores lugares, jogavam gasolina encima da água, acho que você sabe muito bem disso, e jogavam fogo e os índios inocentemente saíam todos correndo, né, “ta pegando fogo na água, ta pegando fogo” e aí os brancos, os portugueses ficavam naquele pedaço de terra. E os índios foram muito importantes para os negros no Brasil. Eu não sei se você já leu sobre isso, sobre a sobrevivência. O índio vive lá, ele sabe qual a árvore que tem água, que dá pra sobreviver vários dias sem água, ele sabe as plantas que pode comer. Quantos negros no meio do mato, lá, perdido, ia comer certas plantas como alimento e morria, entendeu; era veneno. E os índios ensinaram muito aos negros aqui no Brasil, aqui tem muita árvore, muita planta, muito fruto natural aqui do Brasil e os negros metiam os dentes naquilo pra tentar sobreviver, e convivendo junto aprendeu muito, né. Z – Na África sempre foi muito sofrido, os negros vinham pra cá iludidos por uma oportunidade de emprego, ou eles sabiam que seriam escravizados? Raimundo: A mídia tem colocado que os negros vinham a maioria encaixotados, que era isso, que era dessa maneira. O que eu pude levantar entre meus familiares, que eu citei anteriormente, é que eles vinham como uma oportunidade de emprego, né; e o interesse do traficante era chegar com a mercadoria boa aqui, estável. O negro com dedo cortado, o negro magro, o negro assim, não tinha preço de nada, é como se fosse hoje uma boiada de boi. O negro desnutrido, magro, isso e aquilo, não tinha nenhum valor, tinha que ser sarado mesmo, porque era peça comercial, entendeu, e era naquela época um dos melhores negócios pra trocar por açúcar, por isso por aquilo. Era uma maneira, como até hoje existe no Brasil pessoas que são levadas de uma região pra outra pra ganhar dinheiro, depois que chega lá se decepcionam, né. Existia algum caso de vim um amarrado, acorrentado, veio, mas a maioria veio como uma opção de trabalho, sem dúvida nenhuma. A história da minha família mesmo. Vieram como uma opção de trabalho. As negras vinham, como era chamado, naquela leva de escravos, tinham criança, eles tinham visão que aquilo ali seria uma boa máquina. Como hoje, tem um cavalinho, a pessoa investe tudo no veterinário pra ser um bom cavalo de corrida, investe tudo; então vinha uma criança com aquela negra, tinha os olheiros que falavam “esse é dez, pode investir”. E pra amamentar era difícil, né, então eles compravam aquelas mulheres das tetona gorda, eu não sei se você já ouviu falar nisso, para amamentar duas, três crianças negras mesmo. Que foi o caso do Padre Antônio, lá daquela localidade Porto Cravo, quando teve uma emboscada lá mataram todos, é o que nos contam; e sobraram algumas crianças, uma daquelas dali era uma criança que futuramente ele deu o nome de Francisco, registrou esse nome. Aí o Padre Antônio pegou aquela criança e levou pra paróquia. E como é que o Padre ia cuidar dessa criança? Ele comprou uma negra, uma escravona, o objetivo dela era só dar mamá praquela criança. Foi crescendo, crescendo e com doze anos ele já falava latim, escrevia, lia. O pessoal falava que o negro é burro, não sabia nada, e aquele com doze anos já escrevia, lia, falava em latim. Ele questionava com o Padre, o Zumbi, ainda garoto “olha, porque eu to aqui comendo, nessa boa, e aquele ali da minha cor e tal...?” “não. É assim mesmo”... E ele não aceitava isso aí. Com menos de 15 anos ele fugiu, certamente ele deve ter andado, eu não sei especificamente a distância de Porto Cravo até Palmares, aonde tinha o refúgio, o paraíso dos negros, ele andou muito, correu muito. Quando o Padre acordou no outro dia, foi procurar, “cadê o negro, o pretinho?”, não se encontrava lá. E ele já tinha noção aonde ele foi. Mais futuramente ele voltou naquele local ali. Então ele não aceitou, ele tinha tudo, e hoje é difícil ver um negro de sucesso se revoltar, fazer alguma coisa em prol da raça negra. Ele procura ajudar uma creche, ajudar uma instituição, dizendo que é isso e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Z – Além de Zumbi, quais os líderes negros que você se identifica? Raimundo: Olha, são muitos, mas hoje eu gostaria de me identificar com o Zumbi, ele como um grande líder até como uma força espiritual, hoje eu tenho ele e não gostaria de citar outro nome. Z – E os que vivem ainda nos dias de hoje? Nelson Mandela... Raimundo: Exato, Nelson Mandela é uma grande estrela mundial, tenho uma grande admiração por aquela atriz do filme do outro lado da vida, tenho uma grande admiração pela pessoa dela. Aqui no Brasil eu tenho que pensar muito, entendeu, tenho uma admiração por Jair Rodrigues. Eu tenho admiração por Jorge Aragão também. Z – Qual a sua religião? Raimundo: Perguntou uma coisa importante, qual a minha religião. Pessoal negro e branco tem que ser religioso. Tem que ser religioso, como os negros era pagão, não era batizado, hoje tem em todas as religiões. Eu tenho uma religião própria que se chama Centro de Fé pra Libertação. O pessoal pergunta rápido, você tem religião “não. Tem que ter religião, pra ser gente boa tem que ser religioso”. E sendo que o pessoal critica a religião dos negros, o Candomblé, a Umbanda, é motivo de chacota, mas os maiores crimes cometidos pela humanidade anterior e hoje não são adeptos do Candomblé, da Umbanda, né, vou deixar bem claro, é em nome de outros deuses e não em nome dos Orixás. Me sinto envergonhado quando falam em Guerra Santa, matando inocente, matando do jeito que matam. Se é alguém que decidiu ir pra guerra “vamos guerrear”, mas é tanta gente inocente que me dói isso aí. Então hoje eu pertenço ao Centro de Fé pra Libertação. Quando diz libertação é libertação de crença, libertação de comando de homem, libertação de álcool, libertação de fumo, libertação da obesidade, libertação de tudo, a pessoa ser liberta. Quem criou? “O Raimundo”. “Porque eu não posso criar?”. Todas as dominações foi uma pessoa que idealizou, aí passou para a segunda, a terceira, foi indo e cresceram, ta me entendendo. Porque eu não posso criar, entendeu como é que é. E dentro da Umbanda, do Candomblé eu tenho sim a grande admiração. É fascinante os toques africanos, ta entendendo, é lindo, só que o pessoal não se assume. Agora, alguns rituais que existem, são umas coisas bem chatas, a saúde é o principal. Eu vou deixar bem claro que minha religião me permite, eu sou liberto, se eu quiser ir visitar a Igreja Católica eu posso ir, eu não sou corrigido nem pelo meu Deus nem pelo homem, pelo pastor. Se eu quiser ir na Igreja crente pra observar, fazer uma visita pra um amigo meu, posso ir em qualquer uma, como eu vou. Se eu quiser ir no centro de Umbanda vou, se eu quiser ir no Candomblé sou liberto e me sinto bem em qualquer lugar. Ta me entendendo, quando não me sinto bem, me retiro; e isso não foi com o objetivo de colocar placa. Continua na próxima edição do Fanzine.
|
Comentar
|
|
PARCEIROS
BOLETIM
MEGAFONE. É só colocar o e-mail aqui e depois validar o link em sua caixa de e-mail. Às vezes o pedido pode ser encaminhado para o lixo eletrônico.
FACEBOOK
|