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Alexandre Palmar - H2FOZ
Os estudantes da Unila Alexandre Martins, Ary Neto e Renan Peixoto partiram de Foz do Iguaçu para Cuba há quase 40 dias. Eles cairam no mundo para viajar 10 mil quilômetros daqui a Havana de moto com objetivo de participar do 8º Congresso Internacional de Educação Superior. E, lógico, percorrer "os diversos espaços e culturas dessa grande extensão de terra, única e diversa, que chamamos América Latina". Já rodaram boa parte do percurso, o suficente para começar a encher os corações e mentes de história e conhecimento.
De uma forma muita atenciosa, atenderam ao pedido do Portal H2FOZ para um entrevista entre uma parada e outra. A idéia inicial era gravar a conversa por webcam, mas as dificuldades de acesso e transmissão pela internet levaram o papo para outro caminho. A entrevista foi realizada por e-mail. Como os unileiros escrevem com amor, foi desnecessária qualquer tipo de edição. Eis as respostas nuas e cruas dos unileiros do trio aventureiro. As fotos e legendas são do blog e diário de bordo do projeto, o MotoPangea.
Da íntegra abaixo, eis um dos trechos marcantes narrados pelos estudantes: "O sentimento de fazer amizade é uma coisa incrível, enigmática. Como duas pessoas que no momento anterior não se conheciam, no momento seguinte estão dividindo costumes e hábitos diferentes e valorizando-se mutuamente?" Boa viagem e leitura! ____________________
Portal H2FOZ - Só para situar: onde vocês estão agora?
Alexandre Martins - Agora estamos em Medellín, Colômbia.
H2FOZ - Vocês estão há quantos dias na estrada?
Martins - Hoje é o dia de número 37.
H2FOZ - Vocês têm conseguido rodar quantos quilômetros por dia?
Martins - O máximo que conseguimos rodar foi 440 km, todavia, raras vezes. A altitude faz com que as motos não funcionem direito, devido ao ar rarefeito que culmina numa combustão deficitária. Além disso, tem as chuvas, as curvas, os buracos e, também, o cansaço que limita nossa quilometragem. Cremos que temos uma média de 300 km, sendo que a média de tempo que permanecemos na estrada é de umas 9 horas por dia.
H2FOZ - A previsão é chegar em Havana no dia 6 de fevereiro. A data está mantida?
Martins - De certa forma, 6 de fevereiro foi uma data segura que estipulamos, visto que o Congresso começa no dia 13. Considerando as dificuldades que estamos tendo com o translado para o Panamá, é possível que atrasemos alguns dias.
H2FOZ - Por quantos países vocês já passaram? Falta passar por quantos?
Martins - Estamos no quinto país (Argentina, Chile, Peru, Equador e Colômbia), ainda faltam nove (Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Belize, México e Cuba)
H2FOZ - Quais paisagens mais marcantes que vocês encontraram até agora?
Martins - As Cordilheiras dos Andes, o Deserto do Atacama, a serra de Quito, a flora colombiana e podemos incluir também os abismos sociais.

H2FOZ - E pessoas. Durante uma viagem como esta, de 10 mil quilômetros, vocês conhecem figuras a toda hora. Fazem amizades. Como tem sido o intercâmbio de culturas?O fato de viajarmos em condições precárias, limítrofes, faz com que tenhamos contato com os mais diversos estratos sociais, desde a pessoa menos favorecida materialmente até a mais endinheirada.
Martins - Cremos que este é nosso maior ganho, conhecer pessoas diferentes, de culturas diferentes, mas que se assemelham por vivenciar experiências próximas. Quanto mais perspectivas temos, de forma mais completa enxergamos o objeto que nos propomos a estudar , no nosso caso, a América Latina. Talvez pelo fato de o famoso argentino Che ter iniciado na America Latina esse tipo de viagem, de moto, as pessoas com as quais estamos cruzando têm tido uma recepção extraordinária à idéia que temos defendido e a nós mesmos. O fato de viajarmos em condições precárias, limítrofes, faz com que tenhamos contato com os mais diversos estratos sociais, desde a pessoa menos favorecida materialmente até a mais endinheirada. Nossas conversas ocorreram e ocorrem normalmente quando pedimos água ou comida nas casas ou nos comércios, quando paramos para pedir informações, quando alguém, mais interessado, nos para no trânsito para saber o que estamos fazendo tão longe do ninho, quando temos de consertar as motos em pequenas ou grandes oficinas, nos lugares onde almoçamos e jantamos ou somente paramos para uma pausa e café, com os guardas de trânsito nas pistas, as polícias e exército que de vez em quando querem saber de nós, nas famílias do Couchsurfing, onde ficamos um ou dois dias mergulhados nos hábitos da casa, nas residências de amigos da Universidade (Unila), nas casas de familiares de professores da Unila, nos hostals beira de estrada onde obrigatoriamente temos de dormir quando as motos quebram, com os caronistas de carro (quando eu sozinho tenho de ir para diminuir o peso das motos) ou de caminhão (quando levam nossas motos quebradas), com os amigos dos amigos que muitas vezes acabamos de conhecer, enfim nosso leque de tipos humanos têm sido infindáveis. É lógico que todas essas visões interferem de forma vertical na maneira como temos enxergado o mundo, em especial a realidade do mundo latino-americano. Aprendemos muito sobre as várias culturas que há na cultura argentina, as várias existentes na cultura chilena, assim como na cultura peruana, equatoriana e colombiana. O contato físico, o dia-a-dia, os cheiros, as cores tudo tem feito com que ultrapassemos os lugares-comuns, os estereótipos, os preconceitos, enfim, as avaliações fáceis, rápidas, mastigadas pelos meios de comunicação de massa. Também temos levado a cultura brasileira, especialmente de RJ e de SP (de onde somos) e do PR (onde estudamos e vivemos) para as pessoas com quem cruzamos nessa viagem. Temos procurado desmistificar o clássico samba-praia-futebol-e-bunda comumente associado ao Brasil no mundo. Essa postura nos diferencia muito. Sem contar, claro, figuraças particulares que existem em todo canto do mundo, independentemente da cultura da qual estejamos falando.
H2FOZ - Os adolescentes de hoje formam uma geração cada mais plugada e individualizada, que acredita que a internet por si só pode revolucionar. A experiência de vocês é mais um contraponto. Qual a importância da viagem na formação humanística?Acreditamos que nada pode substituir o contato físico direto, por isso fizemos a opção de viajar dessa maneira. Entretanto, também não acreditamos que a internet não possa ser responsável por algum tipo de integração ou de revoluções.
Martins - Vivemos uma experiência coletiva, nesse sentido, temos a necessidade de ultrapassar nossos conflitos pessoais, assim distanciando-se de posicionamentos individualistas. Por tudo o que respondemos na questão anterior, resta como conclusão que o ser humano só se humaniza no contato pacífico e aberto com outros seres humanos. Não há outro caminho. Acreditamos que nada pode substituir o contato físico direto, por isso fizemos a opção de viajar dessa maneira. Entretanto, também não acreditamos que a internet não possa ser responsável por algum tipo de integração ou de revoluções. Temos usado muito a net para conseguir hospedagens, para nos colocar no mundo, para entrar em contato com familiares, entre inúmeras outras coisas. Isso também humaniza. Acreditamos que a internet pode ser responsável por grandes revoluções como ocorreu com o site Wikileakes, ou com os blogueiros, que têm oferecido versões alternativas e mais próximas da realidade de notícias falseadas pelos grandes meios de comunicação. A internet será sempre usada conforme o nível de acesso que um povo tenha à educação. A relação com a informação depende desse outro vínculo com a educação. Por isso, achamos um tanto precoce julgar os adolescentes e jovens por estarem plugados e, por isso, tornarem-se individualizados. Estar plugado pode vir a ser uma oportunidade para que alguém encontre uma informação de tal forma importante para si que resolva partir para o campo da ação. Uma ação sempre começa com uma idéia. Acreditamos tanto nisso que colocamos tudo o que rola com a gente no nosso blog (www.motopangea.blogspot.com). De repente, podemos fazer a diferença. De repente, quem está lendo isso agora pode fazer a diferença para outro alguém, num ciclo infinito de informação e ação. Por isso, sintetizando, acreditamos que nossa viagem é o lado prático do que a galera jovem acompanha cotidianamente na net. Assim, não seria necessariamente um contraponto, mas um complemento. É preciso, entretanto, jamais esquecer o lado humanístico. Tanto na net ou fora dela, ter comportamentos extremados ou impensáveis nos parece desumanizador e sem sentido sempre.

H2FOZ - Antecipa algumas histórias marcantes pra gente.
Martins - Temos vivido muitas histórias, como o nosso blog relata. Mas creio que duas valem a pena mencionar. Uma foi o desespero que nos abateu quando passamos pela fronteira entre Argentina e Chile, no deserto. Como nossas motos estavam quebradas, pegamos carona com um caminhoneiro paraguaio que ia nos deixar em Iquique, já na costa chilena. Quando, entretanto, chegamos à Argentina, as motos não podiam cruzar a fronteira em cima do caminhão. Descemos as danadas, fizemos todos os procedimentos e ficamos aguardando o caminhão. Como os procedimentos para o veículo pesado eram diferentes, achamos que o caminhão iria demorar. Aí combinamos com o motorista paraguaio de esperá-lo na duana chilena, crendo piamente que esta estava a alguns metros depois da fronteira argentina. Isso foi um erro fatal. Aduana chilena fica a mais de 160km da Argentina. Lá pelas tantas da noite, tipo oito horas (que parecia mais, pelo breu, pelo deserto, por tudo) o frio veio de rachar. E quase nos matou. Bateu um desespero real. O Renan achava que suas mãos e pés tinham congelado. O Ary queria se enterrar nas pedras do deserto. Chegamos a pedir ajuda para um carro de brasileiros, mas nada obtivemos. Foi quando corajosamente enchemos nossos corpos de jornal e mandamos bala. Salvamo-nos. Não foi brincadeira, não.A outra história é mais recente, foi quando tivemos de subir a serra até Quito, na chuva, à noite, enfrentando caminhões invadindo nossa pista, o frio, a fome, a velocidade pífia das motocas (15km por hora) e, claro, a incessante chuva. Não chegamos a ficar desesperados como no primeiro caso, mas isso nos deixou de verdade esgotados. Conhecemos mais um de nossos limites. O curioso era que tudo isso era emoldurado por uma paisagem magnífica, o que amenizou o sofrimento.
H2FOZ - Que história é aquela relatada no blog de calibre 12 na cabeça?
Martins - Estávamos pilotando as motos já havia horas. O Ary e o Renan estavam com muito sono. Mas sono mesmo, de sair de pista e tudo. Ìamos para a região de Piúra, no Peru. Diante do cansaço, não tivemos opção: paramos num local ermo, perto de uma placa de trânsito e deitamos no chão. Alguns instantes depois, observamos que uma caminhoneta branca parou do outro lado da pista. Só nisso já gelamos. E aí foram descendo homens de preto com 12 na mão. E foram cercando as motos, como se fazem nestas estratégias de batalhões especiais. O Ary dizia ‘Não tirem a mão do bolso. Não deixem eles tocarem vocês, quando vocês puxarem as mãos dos bolsos, puxem também os bolsos. Tamo fudido!’. Isso deu um pouco de medo em todos. Aí fomos falando que estávamos cansados, com sono, que paramos um pouco para descansar, que éramos brasileiros e tal. Imediatamente mudaram o tom. E passaram a nos orientar, dizendo que ali era um lugar muito perigoso, de assaltos, assassinatos e coisas do gênero. Ficamos bem pianinhos, concordando com tudo. E eles tinham total razão. Enfim, continuamos mais um pouco e achamos uma hospedagem que eles tinham nos indicado. E aí respiramos aliviados. Depois rimos, mas na hora amarelamos.
H2FOZ - Uma curiosidade. O Alexandre está indo na garupa de quem?
Martins - Na garupa do Renan. O Ary maneja a moto que tem o baú e o mochilão. Umas duas vezes apenas houve troca. Agora essa formação, Alexandre e Renan, Ary e mochilas, já esta meio que oficializada.

H2FOZ - Já perceberam mudanças nos corações e mentes de cada um?
Martins - Sim, a partir do momento em que cruzamos Puerto Iguazú, na Argentina, o tempo passou a ter outra dimensão para nós. E como é o tempo que também dá a dimensão da vida, o que inclui mente e coração, de imediato passamos a perceber as mudanças em nós. Os sentimentos se estreitaram em relação as pessoas que ficaram, tornando-nos paradoxalmente mais próximos à medida que as motos nos levavam mais longe. O sentimento de fazer amizade é uma coisa incrível, enigmática. Como duas pessoas que no momento anterior não se conheciam, no momento seguinte estão dividindo costumes e hábitos diferentes e valorizando-se mutuamente? Lógico que nem tudo são flores. Algumas vezes surgem sentimentos de raiva, é normalmente quando se tenta justificá-los com o fato de o outro ser diferente de você. Aliás, isso é outra coisa que muda muito. Você se policia mais, se atenta mais, fica ligado para tentar diferenciar o que é cultural e o que é pessoal. Quanto à mente, ela se abre e, como dizia o Einsten, nunca mais volta ao tamanho normal. Você observa racionalmente como a mídia internacional funciona de forma promíscua, sempre tendendo para análises que normalmente não incluem as perspectivas dos envolvidos. Isso ocorre especialmente com a política na América Latina. Sua mente também muda em relação à avaliação primária que você tinha e a que você passa a ter quanto a colocar as pessoas em rótulos pátrios, como argentino, chileno, peruano etc. Isso é apenas um adjetivo que identifica de onde o sujeito em tese é. Sua mente precisa ir além disso para conhecer de verdade o sentido de ser argentino, chileno, brasileiro etc.
H2FOZ - A viagem está sendo mais fácil ou difícil do que o planejado?
Martins - Depende. De forma geral mais difícil. Entretanto, há momentos de alegria e sucesso. É quando estamos na superfície. Aí aproveitamos para puxar ar, guardar e voltar pro fundo de novo. Mas o inusitado, na prática, tende sempre a causar mais dificuldade que facilidades. Isso também não quer dizer que o que planejamos não foi útil. Pelo contrário. Foi a mínima organização que fez com que chegássemos quase no prazo aqui na Colômbia, onde estamos neste momento.
H2FOZ - E o clima? varia muito ? chuva/sol?
Martins - Nos primeiros 20 dias não choveu, o clima desértico predominava, depois, quando chegamos no Equador, as chuvas começaram e continuam aqui na Colômbia. O frio bate a porta (ou a barraca) sempre a noite na maioria dos lugares, algumas vezes bem intenso. O sol frita, como em qualquer lugar, assim, usamos protetor e roupas que tampam os braços e pernas, a cabeça fica assegurada dentro do capacete.
H2FOZ - As motos deram algum tipo de problema? Como vocês resolveram?
Martins - Sim, alguns: o pneu já 5 vezes; a combustão funciona mal na altitude, assim, tivemos que retirar os filtros de ar (depois os perdemos); as luzes sempre queimam, aliás, muitas estão queimadas agora; a buzina de uma das motos não funciona; algumas peças de plástico já caíram pelo caminho; trocamos uma bateria; uma bobina também teve que ser reparada. Para resolver isso, vamos ao mecânico mais próximo. Atualmente, as motos chineses estão se ploliferando pelo continente, adentrando nas economias, assim, muitas motos, demandam muitos mecânicos.
H2FOZ - Vocês emagreceram?
Martins - Alexandre perdeu 4 quilos. Renan os encontrou. Ary manteve o peso.
H2FOZ - Como será o retorno?
Martins - Ainda não sabemos, sobretudo, devido a falta de verba. Além, estamos concentrando nossas energias na ida, na concretização do projeto. Mas voltaremos, Foz do Iguaçu pode esperar.
Nota da redação: Como contribuir com o projeto? O Projeto MOTOPANGEA não tem fins lucrativos. Contudo, os recursos financeiros para realizá-lo são escassos, os jovens contam com o próprio dinheiro para gastos com hospedagem, combustível e alimentação, qualquer ajuda pode fazer toda a diferença. Dessa forma, as empresas, instituições e pessoas físicas que tenham condições e interesse de apoiar o projeto, devem fazer o depósito em conta corrente. Assim, mesmo já tendo partido em viagem, eles conseguirão fazer o saque durante o trajeto a fim de atingirmos nosso objetivo. Clique aqui para ver o número da conta corrente no Santander e Banco do Brasil.
Portal H2FOZ - Alexandre Palmar @alexandrepalmar
Publicado originalmente no site H2FOZ.
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