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Parece difícil pensar numa comunicação de esquerda, ligada à vida dos trabalhadores e trabalhadoras e, ao mesmo tempo, com grande tiragem e alcance. Há exemplos dentro da história do movimento operário no Brasil. O Partido Comunista Brasileiro, em 1946, possuía oito jornais diários nas grandes capitais brasileiras. Muito antes, o jornal Avanti!, escrito em italiano para os trabalhadores imigrantes de São Paulo, durou de 1902 a 1908, também com tiragem impressa diária. Algo certamente distante da realidade atual, mas não impossível.
No período das lutas entre os anos de 1970 e 1980, firmaram-se tabloides como o diário Tribuna Metalúrgica, do Sindicato de Metalúrgicos do ABC, ou o standard Folha Bancária, do Sindicato dos Bancários de São Paulo, ferramentas de comunicação sindical para categorias combativas e com grande contigente de pessoas. Neste caso, porém, estamos falando de veículos de comunicação que atingem uma categoria específica.
Os dez anos da experiência do jornal Brasil de Fato levantam o debate da relação entre as mídias já existentes no interior das entidades e a experiência de produção de um semanário, que propõe um projeto amplo de esquerda. De acordo com comunicadores e líderes sindicais, as ferramentas de comunicação sindical são inúmeras e têm se profissionalizado. Porém, hoje são insuficientes para a politização da classe trabalhadora e superação de uma visão de mundo economicista.
Na opinião de Alessandra Oliveira, da direção da CUT-Paraná, o Brasil de Fato cumpre uma lacuna dentro da comunicação na vida dos sindicatos, apesar da carência de um periódico diário e de maior envolvimento das lideranças sindicais na questão. “O Brasil de Fato é o jornal para fazer o contraponto com a grande mídia (...) Temos revistas, mas ainda não é um nicho onde o movimento sindical tem investido, o único impresso que existe neste sentido é o Brasil de Fato”, reflete a dirigente.
Essa reflexão acontece no contexto de ressurgimento do movimento sindical na cena política. É um desafio da esquerda dialogar com uma classe trabalhadora jovem e com experiência recente de lutas econômicas e paralisações. “Os novos trabalhadores não querem mais saber desse discurso velho, eles querem respostas para os problemas concretos. E o sindicalismo tem que dar essa resposta. Depois, no cotidiano, precisaria, via comunicação, ir ampliando o universo dessa gente. Os trabalhadores querem saber quando vão ganhar mais. Seria o sindicato a força que deveria mostrar que a vida é mais que salário, mas não faz isso”, critica a jornalista Elaine Tavares.
Periodicidade
O jornalista e educador Vito Giannotti percorre o Brasil assessorando sindicatos a aperfeiçoar sua comunicação com a base. O primeiro aspecto apontado pelo comunicador é a periodicidade de um veículo para os trabalhadores. Neste sentido, Giannotti defende que a mídia sindical e de esquerda ressente-se de um informativo diário. O Brasil de Fato, na sua avaliação, cumpre um papel de revista, realizando uma síntese do que aconteceu na semana.
O educador, idealizador do Núcleo Piratininga de Comunicação, aponta que um veículo com a característica do Brasil de Fato faz sentido no meio sindical, uma vez que trabalha “todos os temas da sociedade” e não apenas assuntos de ordem econômica. “Isso o Brasil de Fato se propõe a fazer: fala dos agrotóxicos, da Venezuela, da luta das mulheres etc. Qual a sua característica? Ele é plural, para todos os sindicatos, não interessa a qual sindicato, mas sim os temas que vamos tratar: a reforma agrária, a luta contra a homofobia, e nós de esquerda temos que falar desses temas aos trabalhadores”, apregoa.
Texto: Pedro Carrano - Foto: Joka Madruga
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