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Com freqüência, acordo assustado com medo de levar um tiro na testa. Veja narrativa de Pedro Lichtnow.
Pedro Lichtnow
Moro no primeiro andar de um pequeno prédio com sacada para a rua. É uma rua pouco movimentada durante o dia. Quase nenhum trânsito. Poucos carros e pessoas passam por lá. Gosto disso.
Gosto do silêncio, da calmaria e dos vizinhos fantasmas. Sentar na sacada, ler um pouco, sentir o vento acariciando o rosto. Nada melhor. O lugar parece fazer jus ao nome. Vila Bom Jesus, rua Espírito Santo. Nomes apropriados.
Desce à noite, o cenário muda, para desgosto. A escuridão reina literalmente. O santo lugar vira quase um campo de guerra. Com freqüência, acordo assustado com barulho de tiros, homens correndo, gritos, sirenes de polícia, Siate alvoroçado, moradores andando desnorteados e curiosos. Algo meio teatral à espera das redes de televisão sedentas para registrar barbaridades e noticiar mais mortes e tentativas de assassinatos em seus programas ‘policialescos’.
Do alto do edifício onde moro, o Monte Castelo – o nome provavelmente é uma menção à região conquistada pelos pracinhas brasileiros contra os alemães, na segunda guerra mundial, no sul da Itália -, geralmente olho pela fresta da janela do banheiro com medo de levar uma bala perdida na testa.
A cena se repete quase todo final de semana. É a violência avassaladora em Foz do Iguaçu. A rua é uma espécie de passarela para muitos marginais. Muitos fogem para esconderijos secretos na favela da Guarda Mirim, pertinho dali. Outros fogem da favela rumo algum local menos visado pelos policiais, um terreno baldio provavelmente. Não dá para afirmar nenhuma coisa, nem outra. Tudo está muito próximo.
Há alguns dias escutei cinco tiros seguidos um do outro. O barulho parecia nascer bem em frente ao apartamento. Depois do estrondo, um homem passou correndo e gritando. A impressão é que seguia outro. Poucos minutos depois, uns 20 a 30, quatro viaturas com o giroflex ligado faziam ronda por todo o bairro, pela favela. Em seguida, desceu um carro do Siate salva-vidas.
Cada vez ficava mais curioso de dentro do meu banheiro, espiando pela pequena abertura da janela. Minutos depois chega à reportagem de uma emissora de Tv. Moradores acordam e saem de suas casas, as luzes das viaturas iluminam a noite escura, sem lua.
Esperei mais alguns minutos de maneira mórbida o carro da funerária imaginando a morte de alguém. Ele não veio. Apenas o Siate saiu do meio de um beco levando os feridos. Salve-se quem puder. No dia seguinte, a manchete do programa de televisão era um homem baleado nas mãos e nos pés, como forma de pagamento por uma dívida, muito provável, de drogas.
Tenho medo que toda essa situação seja banalizada. Que passe como algo corriqueiro e normal. Medo de acordar à noite ansioso para o show começar e não por sentir medo e receio da criminalidade. Essa é a nossa cidade dos sonhos noturnos.
Pedro Lichtnow é jornalista e editor do Megafone.
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