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Há uma tentativa pensada de desarticular, desmantelar, descaracterizar e, principalmente, desmoralizar toda classe de profissionais da imprensa. Veja opinião do jornalista Pedro Lichtnow sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalistas.
Pedro Lichtnow
A discussão não deveria se ater simplesmente a obrigatoriedade ou não do diploma de jornalistas. O tema me parece muito mais amplo sugerindo uma tentativa pensada de desarticular, desmantelar, descaracterizar e, principalmente, desmoralizar toda classe de profissionais da imprensa. Não avalio, entretanto, como primordial o diploma na hora de mensurarmos a qualidade de um profissional. Temos vários exemplos de excelentes repórteres, repórteres cinematográficos, fotógrafos, diagramadores ou mesmo editores, entre outras funções, inclusive assessores de impressa e comunicadores sociais, sem um diploma, sem cursar uma faculdade ou freqüentar os bancos acadêmicos.
O ato de comunicar-se, manifestar uma opinião, ou mesmo reportar e narrar algum episódio do cotidiano é assegurado pela Constituição Federal Brasileira. Mas a preocupação não deve recair-se ao fato de um profissional escrever melhor ou não sem um diploma de jornalista na mão, um fotógrafo retratar com mais habilidade e sensibilidade uma cena mesmo sem o certificado ou, quem sabe, um assessor de imprensa divulgar com mais eficácia seu assessorado sem nunca pisar em uma universidade. Isso sim seria uma visão simplista e ainda provinciana do assunto. A questão é econômica e travada por conglomerados empresariais de mídia nos bastidores políticos. O poder e o interesse econômico de grandes grupos de comunicação, como a Folha de São Paulo, que lidera a campanha nacional contra o diploma, norteiam os rumos verdadeiros do debate. O patronato luta contra a formação em jornalismo e comunicação social com objetivo específico de desajustar, desregular e enfraquecer qualquer movimento da imprensa em favor da união da classe de profissionais de comunicação, da luta por direitos trabalhistas, da força de uma categoria contestadora, considerada ainda por boa parcela da sociedade como o terceiro poder, contra abusos patronais, políticos e econômicos.
Sem a obrigatoriedade do diploma estaremos, certamente, a mercê definitivamente dos interesses dos patrões, de propriedades cruzadas de mídia e oligopólios sem a menor defesa ou possibilidade de reação aos devaneios e desmandos de muitos veículos de comunicação. Será o princípio para a desmobilização total da categoria, com a contratação de pessoas inabilitadas para a função por baixos e ínfimos salários, a prostituição e a promiscuidade da classe e a imposição de um fascismo com base na ditadura comercial e econômica das empresas de mídia, algo já proeminente.
Sem a necessidade de diploma damos abertura, por exemplo, para as empresas contestarem com grande possibilidade de vitória os valores estipulados para o piso salarial da categoria, a questão da quantidade de horas trabalhadas por emprego, e outros direitos adquiridos ao longo de muitas batalhas sindicais e de muitos profissionais. Perdemos ainda o vigor dos sindicatos, das associações e de outras entidades ligadas à imprensa e jornalistas. Perde-se respeito, credibilidade social e força política em praticamente todos os lados da sociedade. Não temos bandeira, nem causa. Parafraseando Caetano Veloso, seguimos “sem lenço, nem documento”.
Pedro Lichtnow é jornalista e editor do Megafone
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