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Aécio e Serra travam uma disputa particular pelo poder. Eles lutam para assumir a posição de candidato do PSDB à presidência. Leia análise do jornalista Pedro Lichtnow.
Pedro Lichtnow Fotos: Kiko Sierich

Olhem esses dois sujeitos. Apesar de disfarçarem, Aécio e Serra travam uma disputa particular pelo poder. Eles lutam e articulam politicamente para assumir a posição de candidato do PSDB às próximas eleições presidenciais.
Serra, mais comedido em palavras e em sua postura aristocrata, demonstra, inevitavelmente, uma vontade voraz estampada em seu olhar vampirizante de centralizar as atenções no pleito nacional de 2010. Aécio, mais passional, tenta disfarçar, mas quase baba ao falar do assunto.
Os dois proclamam em alto e bom som a unidade nacional do PSDB em primeiro lugar, mas as vaidades e o jogo particular de interesses talvez atrapalhem o processo de escolha definitiva do nome do candidato do partido ao Planalto Central. Essa demora e atraso para definir o candidato oficial podem, sem dúvida, comprometer.
Nesta sexta-feira (5) o casal de tucanos e quase todos os principais nomes do partido estiveram em Foz do Iguaçu, para participarem do “Seminário Agricultura e Agronegócio no Brasil”. O seminário foi um pano de fundo apenas para o verdadeiro motivo do encontro: as eleições presidenciais e a escolha do “cara” que deve representar o PSDB.
Esses dois sujeitos assustam. Defendem um discurso neoliberal de forma bastante clara, sem nenhuma vergonha ou pudor. Fiquei espantado com a frieza e a “racionalidade” desmedida que trataram, em seus discursos, temas como agricultura, agronegócio, meio ambiente e, em especial, o povo brasileiro.
Tanto Serra quanto Aécio defendem a alta produtividade em propriedades rurais. Mas para isso, insistem na retórica da insignificância da agricultura familiar, das pequenas e médias propriedades.
Essas aves de rápina desmerecem todo o trabalho desenvolvido hoje no país na agricultura de pequena escala, a produção orgânica ou o pequeno agricultor, o homem do campo que sobrevive da subsistência dos alimentos de que produz e do comércio, necessário para abastecer as pequenas cidades e revendas.
Tentam distorcer programas estatais que valorizam a agricultura familiar classificando-os como uma suposta dicotomia ideologia pregada pelo governo federal. “Existe uma dicotomia (ideológica) de que a agricultura está separada entre agricultura familiar e o agronegócio. O que existe é uma agricultura só e que deve ser em grande escala e em grande produtividade”, disse descaradamente o excelentíssimo Serra.
Vejam. Agricultura em grande escala é o mesmo que monocultura, latifúndios e centralização da terra. Os sujeitos defendem latifúndios, concentração de renda e de terras. Ou seja, a manutenção do status quo.
Eles esquecem, por exemplo, da agressão ao meio ambiente causada pela monocultura, por agrotóxicos, pela não diversificação de cultura no solo, sem falar na escassez dos recursos nutricionais e minerais do solo. Esquecem ainda do homem simples do campo que vive da pequena produção, dos alimentos produzidos de maneira sustentável e saudável, numa relação de harmonia com o meio ambiente.
O que interessa para esse grupo é apenas o grande latifúndio, o favorecimento de coronéis de engenho, o lobby de fazendeiros e a produção em alta escala, mas em detrimento de milhares de pequenos e médios agricultores que sobrevivem da agricultura familiar.
 Na tentativa de denegrir a imagem do governo, tentaram ainda de maneira equivocada falar da agricultura como a âncora verde do país, que sustenta a economia brasileira. Em síntese, não houve como não elogiar indiretamente o trabalho realizado no país nesse segmento. “A agricultura é quem sustenta nossa economia. Precisa ser vista com mais atenção. Para vocês terem idéia da importância e dimensão desse setor, pesquisa recente mostrou que os índices da agricultura cresceram 40% neste quadrimestre, em comparação com o mesmo período do ano passado”, disse Serra.
Aécio reforçou ainda que "boa parte das divisas que o Brasil obtém é sustentado pelo agronegócio". E complementou: "se não fosse a atividade agrícola, nós teríamos já déficit na nossa balança comercial".

Ambos destacaram que a agricultura representa hoje em torno de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. "Perto de 25 milhões de pessoas são diretamente ligadas ao agronegócio", disse Aécio Neves.
Serra também observou que, em 2008, o saldo comercial do setor agrícola e agropecuário no Brasil foi de aproximadamente 60 bilhões. "Enquanto que o saldo do conjunto da economia foi de 23 bilhões. Ou seja, quem segura à área externa é o setor agrícola", ponderou. Além disso, a produtividade aumentou 60%, nos últimos anos”.
Com tantos elogios, baseados em dados concretos, como os pré-candidatos pretendem contestar alguma coisa em palanque. Em resumo: se a agricultura é a âncora verde do país, o sustentando economicamente, é porque o setor está, no mínimo, sendo bem atendido.
Apesar dessas contradições, esses caras assustam.
A frieza e a ambição desenfreada arrepiam. Eles tratam o ser humano como números e o sistema com teorias. Parecem-me engomados tecnocratas sedentos pelo poder, pelo neoliberalismo, pelas privatizações desnacionalizando o país e pela glória política. E o país tem muitas chances de cair, pelo menos nos próximos quatro anos, nas mãos e asas desses tucanos.
Pedro Lichtnow é jornalista e editor do Megafone.
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