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Por que não pagar tributos? Não acho que deva haver privilégios nesse sentido a qualquer congregação religiosa. Veja artigo do jornalista Pedro Lichtnow.
Pedro Lichtnow
Por que não pagar tributos? Não acho que deva haver privilégios nesse sentido a qualquer congregação religiosa. Igrejas, seitas, ordens ou afins deveriam, sim, enquadrar-se a algum sistema de pagamento de impostos. A justificativa para fugir desta pesada responsabilidade é o trabalho social e espiritual praticado pelas religiões, que não visa, segundo sua filosofia plena, fundo lucrativo.
Na teoria, toda a arrecadação de alguma ordem sacra proveniente do rebanho de fiéis deveria reverter-se única e exclusivamente a promoção do assistencialismo e de obras de caridade.
Na prática, a história é outra. O dinheiro doado pelos colaboradores ‘voluntários’ tem, muitas vezes, outro fim. O dinheiro suado e ganho a custo pelos fiéis acaba engordando o robusto cofre dessas ordens e serve para a aquisição e controle de meios de comunicação de massa, templos esplêndidos, bens particulares em diversas partes do mundo, sem falar em investimentos financeiros e em ações, imobiliários, entre outros patrimônios.
Não me refiro a uma ou outra congregação, mas a todas as ordens que usam essas doações principalmente com o objetivo de expansão geográfica e de poder. Onde fica a questão da caridade e do assistencialismo? Infelizmente, em segundo plano.
A ideologia e filosofia de qualquer segmento da fé seria essa. Oferecer conforto espiritual e assistência neste plano intrafísico. Contudo, a ganância pelo poder, status quo e pelo domínio das mentes, do maior número de mentes possível aparece em primeiro lugar na lista de prioridades.
Seria fácil mensurar isto. Vamos comparar quanto se gasta em obras de caridade e quanto é investido na aquisição de meios de comunicação e investimentos particulares.
Hoje tramita na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) o projeto de decreto legislativo que referenda acordo internacional entre o Brasil e a Santa Fé.
O projeto reconhece a natureza jurídica da Igreja Católica. O texto consolida a lei de condutas e procedimentos já adotados pela Igreja Católica no país, como o casamento, o ensino religioso nas escolas e a “imunidade tributária”.
Mas por que isentar alguém que investe, possui patrimônios, templos ostentosos e mordomias específicas simplesmente pela justificativa de oferecer apoio espiritual e destinar os recursos exclusivamente a obras de caridade?
Nossa carga tributária é uma das mais altas e pesadas do mundo. Somos nós que sustentamos o governo, seus gastos e privilégios. Independente disso, desse abuso governamental, o privilégio não deve existir para quem não privilegia ninguém.
A sociedade precisa deixar de temer a influência política e econômica ou o medo espiritual disseminado pelas congregações e exigir um sistema igualitário de cobrança de impostos e de tributos.
Igrejas e ordens são empresas. Precisamos acabar com dogmas e crendices que elevam esses poderes paralelos a patamares inatingíveis do povo e, ao mesmo tempo, os colocam como meras instituições de caridade dependentes de privilégios e da boa vontade da sociedade e do governo para sobreviver. Coitados de nós.
Pedro Lichtnow é jornalista e editor do Megafone
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