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* Pedro Lichtnow
Turbina ostenta um ‘bigodão’ ala Clark Gable, muito mais vasto e espesso e muito menos galanteador e polido. Fala alto, de maneira expansiva, out side, com clareza e firmeza. Outra marca são os óculos fundo preto de garrafa coca-cola litrão. É um sujeito autêntico, espontâneo e linear. Como o mesmo se intitula: “sou justo”.
O apelido vem dos tempos que turbinava todas. Gostava de drinks diversos: Hi-Fi, Cuba Libre, Gin Tônico, Caubóis, caipirinhas, cachaças, vinhos, cervejas (...) bons tempos aqueles em que o fim de um caso solucionado terminava na Casa das Primas.
O apelido faz jus ainda ao temperamento explosivo, carregado de revoltas contra a podridão do sistema, a falta de vergonha das autoridades, a hipocrisia corruptiva de muitos colegas, à banalidade das ruas e ao comodismo hipnótico das pessoas - certamente, uma revolta explicável e bastante compreensível.
O dinamite Turbina faz parte de uma leva antiga de tiras. Ele é da época que existia um certo respeito mútuo entre à marginalia e o ‘policia’. Quando um bico descia o morro – naquele tempo os bandidos acomodavam-se nas planícies urbanas – a recepção era outra, digamos, menos agressiva e repulsiva.
Dos idos da ditadura, do regime de ferro, quando preciso, seguia a cartilha. O meio, afinal, era uma guerra pelo poder. O lado humano sobrepôs-se quando, ainda hoje, acompanha de perto a situação dos jovens presos pelas suas mãos e algemas. Turbina sempre deu satisfações às famílias dos detentos, informando-as sobre o estágio de cada um, ou mesmo transferindo notícias, comida ou medicamentos doados pela parentela. Uma humanidade desconhecida e ignorada pelo sistema.
Hoje aposentado, o exacerbado Turbina auxilia à classe ao receber um convite especial dos companheiros. O caráter irrequieto ainda o causa transtornos, inimizades passageiras e, sem dúvida, admiradores anônimos, que, com certeza, gostariam de possuir personalidade semelhante a este soldado da vida.
O sujeito causa estrondo por onde passa. Não é um santo, nem um demônio. É apenas um ser humano imperfeito, limitado pela estrutura do sistema que usa a própria personalidade como forma de protestar contra tudo e contra todos, sem nenhuma passividade, parcimônia ou autocensura.
Hoje, o Turbina é uma criatura mais tolerante e quase controlável. Todavia, não perde a rispidez comportamental. Todas as noites, costuma dizer, sonha ironicamente com um episódio de sequestro relâmpago para assustar uma determinada personalidade:
- Numa noite de Lua Cheia, levaria para uma colheita, rasparia a cabeça e a soltaria numa colheita longínqua e abandonada. Coitado de quem a encontrar, pois morreria de susto.
Turbinado pelo humor mórbido e negro, este sujeito áspero, de meia idade, cativa pela sinceridade e por conservar trejeitos, de certo modo, antiquados, porém valiosos numa sociedade banalizada pela libertinagem e pelo individualismo. Turbina é um quadrado irregular e uma relíquia perdida no tempo do conservadorismo pitoresco.
Pedro Lichtnow é jornalista e editor do site Megafone.
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