|
* Pedro Lichtnow As últimas edições do JN (Jornal Nacional) levantaram novamente o debate sobre a cobertura dedicada pela imprensa televisiva aos grandes desastres. O primeiro ponto de análise deve ser o formato adotado para o acompanhamento do acidente do Airbus da Tam. A Rede Globo designou seus principais repórteres para trazer informações em tempo real aos telespectadores, minuto a minuto, dependendo da urgência. Os familiares das vítimas foram e continuam sendo ouvidos, autoridades ligadas ao episódio e passageiros que, por um motivo ou outro, desistiram de embarcar no avião. Tudo isso está dentro do padrão de cobertura de tragédias de grande repercussão, já que a emissora detém estrutura humana e técnica de primeiro mundo. Mas esse não deve ser considerado o “X” da questão. O que pode ser visto nas transmissões do JN é uma total falta de respeito aos familiares das vítimas, aos telespectadores e ao público brasileiro de uma forma geral. Para começar, o editor-chefe do programa, Willian Bonner, por culpa e por cumprimento de ordens superiores, muito provável, tratou o caso como mais uma tragédia, registrada numa época de atentados e ataques terroristas em todo o mundo, algo corriqueiro. Primeiro porque o desastre ocupou partes dos blocos do programa, significantes, devemos admitir, mas insuficientes para a dimensão da história. Um acontecimento com tamanha magnitude, considerado o maior desastre aéreo de toda a história da aviação na América Latina, merecia, pelo menos, um programa inteiro, completo. Sabemos da briga incondicional travada diariamente pela audiência, porém há episódios com maior relevância, em que os números e os índices são esquecidos pela população, aparecem em segundo plano. Uma nação inteira de luto, sangrando por dentro, merece e precisa exigir sensibilidade, transparência e respeito à grande mídia da tevê. Todos compartimos do sofrimento das famílias. Há um clima geral de angústia e tristeza que paira pelo ar e pelos corações. Por isso, qual procedimento seria o ideal? No mínimo, dedicar o JN, divisor de águas de duas novelas, pelo menos no dia trágico, ao acidente. Seria o mais sensato e coerente, pois todos estamos sintonizados quase que de maneira exclusiva ao caso. Mas qual foi o procedimento adotado? O Jornal Nacional garantiu mais espaço para o incidente, mas manteve outras manchetes que, de acordo com a análise dos editores, diretores e apresentadores, preservam a audiência inabalável. Soou estranho, superficial, falso, maquiavélico e prepotente a atitude da emissora. Num bloco do programa, todo aquele drama escancarado dos familiares, os depoimentos emocionantes, imagens chocantes. O casal de apresentadores com aquele ar de indignação, com gestos, caras, caretas, bocas, fala nervosa e petrificada. No bloco seguinte, o cenário mudou completamente, desde o cenário do estúdio propriamente dito à fisionomia e à tal emoção dos televisivos Bonner e Fátima Bernardes. Naqueles instantes, as faces transbordavam alegria, entusiasmo e excitação com as notícias relacionadas aos Jogos Pan-Americanos, que acontecem no Rio de Janeiro. Uma posição e postura totalmente contraditória, que desmereceu e banalizou de forma macabra toda a cobertura anterior, também sem muito aprofundamento. Em síntese, o total desrespeito humano com tudo. O perfeito comportamento de atores charlatões. Poderiam escalar qualquer elenco de novela das oito que fariam sucesso certamente. Ao final do programa, a sensação é de que o dever do “casal 20” e dos demais “profissionais” do programa fora cumprido. Assim, era o momento de seguir para seus condomínios de luxo e descansar a cabeça em travesseiros de pena de ganso com a consciência tranqüila. E as vítimas, os familiares e a população brasileira que se lixem e se confortem com as notícias veiculadas pelo jornal, que filtra, sonega e manipula a informação da maneira que bem entende, conforme os interesses econômicos e políticos. As notícias do Pan são importantes, precisam ser divulgadas e, com certeza, parte da população tem desejo de saber as novidades. Mas por que não se produziu um bloco específico, num formato de boletim dos jogos depois do JN ou em outro horário? Essa, sim, deveria ser a atitude correta e de respeito. O Jornal de luto pelo episódio e as notícias do apagado Pan veiculadas, conforme o desejo dos patrões. O jornal, no entanto, desconsidera a inteligência da população com uma postura arrogante e autoritária, em que assume o papel de dono da verdade e da razão. * Pedro Lichtnow é jornalista e editor do MEGAFONE.
|