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* Eliandro Avancini
Já faz algum tempo que não escrevo mais, ando sem apetite “letral”, pois só escrevo quando eu quero, quando acho que tenho algo pra dizer. Hoje eu acho que tenho algo a dizer, Foz do Iguaçu vive aos dois dias de setembro de dois mil e dez, um grande êxtase, movimentação intensa na cidade, o Presidente está aqui, veio pra dentre outras coisas, inaugurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), pra ver a companheirada e fazer campanha pra Dilma. Todo stafe político da cidade está(va) grudado em sua barba.
Euforia total, menos pra mim, e para o pequeno Everton Ferreira da Silva de quatro meses vida e mais algumas pessoas que não sei o nome. As 17 horas tive um mal súbito, minhas vistas ofuscaram, minhas pernas tremeram e gelaram, meu peito doeu, foi rápido mais foi o bastante pra me botar medo e me fazer procurar uma unidade de saúde da cidade. Cheguei ao PAM do Morumbi, pouco depois das 17 horas, já nervoso com o mal que me acometia, fui informado que não havia médico local, que talvez depois das 19 horas, nem esbravejei contra a atendente, olhei para os lados, dezenas de pessoas, algumas aparentemente mais adoentadas que eu, me conformei, pedi se pelo menos se era possível verificar minha pressão, fui orientado a entrar em uma espécie de antessala, neste momento é que minha história, a do prefeito, a do presidente e a do pequeno Everton se cruzam.
Bom, encaminhei-me até a antessala, mais desespero, gritaria, três ou quatro crianças por ali adoentadas, uma me chamou a atenção, o pequeno Everton, a mãe aos prantos, eu com o braço esticado para o enfermeiro verificar a pressão, outro pai perguntando se o caso da filha dele era grave, o enfermeiro atendendo mais três pessoas além de mim e o pai, parecia uma cena surreal, um sonho, como se todo mundo falasse ao mesmo tempo, e falava, numa espécie de torre de babel clínica. Gritos, choro, desespero, eu ia ficando cada vez mais nervoso, neste momento me acovardei, fui incapaz de exteriorizar meu nervosismo e minha indignação, logo entendi que todos ali eram vítimas de muita mentira da mesma mentira, de muita história pra boi dormir, contada e recontada diariamente na cidade pelo cidadão número um de Foz.
Olhei para trás, a mãe de Everton, passando-o para uma enfermeira, alguns outros atendentes também desesperados, em poucos segundos deu para perceber que o menino já não tinha mais vida, estava roxinho, um pingo de gente, uma vida que se ia no momento que a cidade inteira estava em êxtase, se eu pudesse fazer uma filme, colocaria duas imagens na tela, a do prefeito e a do presidente cortando a faixa de inauguração do UPA, e a do Everton no colo da enfermeira desesperada. Passei mal de novo, sai daquele local quase em transe, parei na esquina e me segurei em um poste aguardando alguém vir me buscar.
Pode até ser que a presença de um médico naquele momento não salvasse a vida de Everton, que por algum motivo morreu, mas pelo menos não deixaria a dúvida o desconforto e o desespero de todos que vivenciaram toda aquela situação, isso prova que muitas coisas que fazemos, e isso me inclui, precisam serem revistas, não é possível acreditar que tudo isso faz parte de um cotidiano cruel e que assim será para sempre, principalmente na conformidade de nossas consciências.
O prefeito foi beber vinho. O presidente foi pra algum lugar do Brasil, talvez Irã. O pequeno Everton, se foi!
* Eliandro Avancini é professor da rede estadual e funcionário público municipal.
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