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Fabiane Colling
Domingo. Custei a descer do carro e entrar na rodoviária. O trajeto apertado e conturbado da linha metropolitana entre Santa Helena e Foz do Iguaçu me fez ficar batendo papo com meu irmão até quase perder a hora.
O único banco com espaço para as pernas obedecendo aos princípios humanos já estava ocupado. Sentei então com uma senhora que decidiu segurar toda a bagagem dividida entre mãos, pernas, chão e banco. Assim, com o pouco que me sobrou, fiquei sentada, imóvel, por três horas.
O que salvou àquela mulher do meu total desprezo foi o ruído que saia dos seus fones de ouvido. Eu não duvidaria que estivesse escutando Daniel ou, influenciada pelos jovenzinhos, algum sertanejo universitário. Mas a guitarra e a bateria não enganavam ninguém. Era rock, bebê. Em São Paulo, ela seria uma daquelas inusitadas entrevistadas do Projeto Metrophones (metrophones.tumblr.com) – onde o rosto esconde o coração.
Nos meus ouvidos tocava Arnaldo Antunes.
Antes de continuar, preciso fazer um comentário: gosto muito de Nando Reis, mas acredito que ele jamais deveria ter cantado com o Arnaldão – depois dos Titãs. A voz grave e melodiosa do dono da casa mais bonita de Inhotin (no dvd “Ao vivo lá em casa” que assisti na minha querida amiga Stela) abafa o tom estranho e desafinado do outro ex-titã. Cante sozinho, Nando, que te amo.
E ao som de Arnaldo – e vou me desfazer da maneira adequada de se chamar por sobrenome –, acompanhei uma espécie de dança do acasalamento. Porém, não se prenda a esse termo esdrúxulo que escrevi. A história é bonita.
No ritmo apertado das balançadas do ônibus, um casal – aparentemente amigos – estava de pé, com um quê de equilíbrio. Um queria o outro, era fácil perceber. E no ritmo da música, li indiscretamente os sinais dos dois.
Eram os olhos que brilhavam. Era o falar tocando. Era o braço de um cruzando o corpo do outro até alcançar uma barra do ônibus e, nesse cruzar, cruzar os dedos para que o balançar da carruagem os unisse. Era o não falar com certa insegurança de não saber o que fazer com os braços e com os olhos.
E o Arnaldão cantava: “Se tudo pode acontecer, se pode acontecer qualquer coisa. Um deserto florescer, uma nuvem cheia não chover. Pode alguém aparecer e acontecer de ser você”.
Ao contrário da maioria das pessoas que reclama pela grande quantidade de gente no ônibus, a cada novo passageiro que entrava, o casal ficava mais feliz e o espaço entre eles diminuía. Quase vi a boca do rapaz cantando comigo: “Estou pronto para embarcar sem me preocupar e sem temer”. E a menina continuava: “Vem me levar para um lugar longe daqui, livre para navegar”.
À medida que entram novos passageiros, todos os que estão de pé são empurrados para frente. Eis uma grande lata de sardinha. E foi assim que o casal saiu do meu campo de visão. Comecei a ouvir Ida Maria, precisava de um rockzinho/indie pra aguentar a senhora-malas-acdc ao meu lado.
Depois de algum tempo, onde minha única visão era, à frente, um casal se agarrando e, ao lado, o cobrador indiferente, abre-se uma brecha entre o mar de cabeças e volto a ver o casal amigo em suas primeiras horas de amor & pudor.
Voltei rapidamente para Arnaldo Antunes, antes que Ida começasse com seu “I like you so much better when you naked” ou “Whisky please, I nee-e-e-ed some whisky please”.
E falei, vai Arnaldão, solta essa voz.
“... eu quero que esse momento dure a vida inteira”.
Mandou bem, hein, Arnaldão.
Foi bom escutar com os olhos. E eu já estava precisando de uma nova história, e sem os dark-dramas que normalmente me afetam nessa linha metropolitana.
Vamos lá, Antunes – com todo o meu respeito à sua participação especial nessa história de amor: “Não há o que lamentar quando chega o fim do dia”.
Fabiane Colling é jornalista e atriz em Foz do Iguaçu 2011.10.23
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